segunda-feira, 1 de junho de 2015

Mamaluquices de Nunes Bastião















Paulinho Assunção (*)

Esse Sebastião Nunes. Ou Bastião Num, forma autocorrosiva com a qual assina o texto introdutório de sua Antologia Mamaluca, reunião de quase tudo quanto publicou (“folhetos, cartazes, envelopes recheados de papéis de todas as formas, e até livros parecidos com livros”) desde 1968, e que ele lança agora pela sua – dele, Sebastião – Edições Dubolso. 

Aliás, a Mamaluca cai na vida junto com outro lançamento, a reedição que o próprio Nunes faz daquele não menos desbocado O Elixir do Pajé, de Bernardo Guimarães, essa suma escathologica tropical. Quem comprar um, leva o outro na bagagem, de graça.

Poeta das alegorias gráficas, distribuidor de humor, sátira, paradóia, macunaímico mais que Macunaíma, descomportado como o diabo gosta, publicitário que fez a catilinária mais violenta da propaganda brasileira com o livro (anti-livro) Somos todos assassinos, lançador de ambigüidades no discurso à cote, desfreqüentador de rodas e igrejinhas (“eu nunca fiz parte de nenhum movimento”), o mineiro Sebastião Nunes é uma usina de desafinar. 
Dois pontos. Corais contentes. Fez Direito e sempre exerceu o gauche.

“O primeiro poema que escrevi foi em 1967”, diz ele. Deste poema, já canabalizando o potencial visual da propaganda (“os quadrinhos, as fotos, a ilustração”), Nunes disparou o seu livro de estréia, Última carta da América, no ano seguinte. Desdevedor de editor, como até hoje. 

Mas com duas tentativas, é bom que se aclare. Uma, junto à Civilização Brasileira, recebendo o “não” de praxe. Outra, junto à Brasiliense: além do “não”, “recebi do Caio Graco um envelope cheio de panfletos sobre as diretas-já”. 

Recusado pelas outras, ficou com a sua, a Dubolso, onde rege múltiplos instrumentos.

Aí é que está. Na poesia de Sebastião Nunes, desenho e texto, o iconográfico e a palavra não se separam. Antes, contaminam-se, cinéticos, na página-clip. Só raramente o texto vem só-texto, assim mesmo injetado, por exemplo, por uma capitular desmedida, ornamental, onde o poeta faz penetrar ou roçar uma epígrafe.

É o caso, por exemplo, do poema inédito da Antologia Mamaluca, “Canção para Dolores Duran”, no qual o “F” inicial do primeiro verso acolhe uma citação mais do que obscura de Carlos Drummond de Andrade, justamente sobre a “Fatalidade”.

A mediania feliz, ou dourada, esse chantilly cremoso que substitui a inteligência na vida brasileira (“este é um país do banal”), eis aí o alvo gostosamente predileto desse Sebastião. E Áurea Mediocritas é o título do segundo volume da Antologia Mamaluca, ainda sem data para lançamento. Não poupar a ninguém, eis a especialidade desse satírico e sátiro afiadíssimo em plena era do padrão por baixo, da mediania dos brejais.

“A poesia mais difícil de fazer é a satírica”, diz Nunes, lançando algumas pedras de toque para uma (sua) estética, embora diante desse termo de abotoaduras já se possa prever o que Nunes oporia, uma “Ode à pústula”, por exemplo, com todos os excessos de acentos graves: “Ante tu, ó pústula/ com tua geléia amanteigada de pus...”

Escatológico? Nem importa. “A essência da poesia é política”, afirma. Uma política ao revés, diga-se, “porque a poesia deve ser comprometida com a inteligência”. E essencialmente demolidora. Não é à toa que o poeta vem escrevendo uma História do Brasil, dicionário enciclopédico. Algo como um Bouvard e Péuchet: a compliação flaubertiana e mamaluca da estupidez humana, tal como é exercida em terras tupiniquins. É esperar pra ver.


(*) Paulinho Assunção é jornalista, ficcionista e poeta, autor, entre outros, dos livros Cantigas de amor & outras geografias, A sagrada blasfêmia dos bares e Diário do Mudo. Esse texto foi publicado no jornal LeiaLivros, em agosto de 1987.

O poeta da ficção científica
















Julio Ludemir (*)

O escritor paraibano Bráulio Tavares vive em mundos simultâneos, como se fosse um dos personagens da ficção científica de que tanto gosta e da qual é um dos maiores especialistas no Brasil. O link que o transporta para universos aparentemente antagônicos, como a literatura de cordel nordestina e o cinema surrealista de Luis Buñuel, é a palavra que aprendeu a amar e a manejar nos livros da vasta biblioteca do pai, o jornalista Nilo Tavares. Foi com ela que se tornou parceiro de Lenine em algumas pérolas da música popular brasileira, ajudou a dar projeção internacional ao artista multimídia Antônio Nóbrega e vendeu mais de 50 mil exemplares com as piadas que rechearam “Como Enlouquecer um Homem”. “Para mim, tudo isso é literatura”, simplifica.

Um poderoso Hubble para radiografar os mundos de Bráulio Tavares é o livro 243, no qual reúne todos os artigos que publicou entre os dias 26 de março e 31 de dezembro de 2003, no Jornal da Paraíba. Essa obra só obedeceu a um critério de seleção: os artigos seguem uma ordem cronológica. Mas se o objetivo dessa publicação é pretensioso (“quero facilitar as futuras pesquisas dos estudiosos da minha obra”), a sua concepção se dá por intermédio de uma maneira toda própria de pensar, onde a capacidade de associar idéias é muito mais forte do que a capacidade de criar conceitos abstratos generalizantes. “Gosto de pegar duas coisas e mostrar o que elas têm de parecido e de diferente”, explica. É assim que consegue enxergar a cadeia de relações que une o folclore e a cultura digital, título de uma coluna que publicou em junho de 2004, que fará parte da coletânea 314, cujo lançamento está previsto para 2005.

O bom humor, tão presente em sua vida quanto a sua polivalência, dá a falsa impressão de que Bráulio Tavares é uma espécie de Dorival Caymmi da literatura. Redondo engano, como se pode constatar com a aterrissagem de dois outros recentes títulos de sua autoria nas livrarias. Um deles é “A Tradição do Romanceiro” (o título ainda não havia sido definido pela Editora 34 até o fechamento desta edição), livro resultante de um curso que ministrou para professores da rede pública de São Paulo, em uma de suas muitas parcerias com Antônio Nóbrega. O outro é “Os Martelos de Trupizupe”, uma coletânea dos martelos agalopados que escreveu nos últimos 30 anos.

Bráulio Tavares também está envolvido na criação de pelo menos três roteiros cinematográficos, dentre os quais está a adaptação do livro “Faca”, do cearense radicado em PE, Ronaldo Correia de Brito. Homem de trato afável, ele tornou-se um mestre na criação de parcerias artísticas, dentre as quais a mais longa e mais importante talvez tenha sido a que fez no final da década de 1970 com a conterrânea Elba Ramalho. Foi graças a ela que abandonou as noites olindenses, onde, no improvisado palco do Centro Cultural Luiz Freire, fez o primeiro show de sua vida ao lado de Zé Rocha, o Batida de Madrugada.

O sucesso da gravação de “Caldeirão dos mitos” levou-o ao Rio de Janeiro num semileito da Itapemirim, sonhando com uma carreira de letrista nos moldes da de Aldir Blanc, Paulo César Pinheiro e Ronaldo Bastos. Mas o apadrinhamento de Elba Ramalho, para quem escreveu o roteiro do show Coração Brasileiro, em 1983, não foi o bastante para que se afirmasse nesse mercado de cartas marcadas. “A luz no fim do túnel só apareceu depois da metade da década, quando comecei a traduzir histórias de amor para a Rio Gráfica, que mais tarde virou Editora Globo”.

Era a sonhada entrada no mercado editorial, no qual se sentia muito mais seguro do que com um violão que nunca teve paciência de afinar e a sua inconfundível voz rouca. “O livro sempre foi o meu aquário, nele eu nado como peixe”. As conquistas foram surgindo naturalmente, como o ensaio “O que é ficção científica”, que publicou pela então prestigiada coleção Primeiros Passos, da saudosa Brasiliense. Depois veio o Prêmio Caminho de Ficção Científica de 1989, com o livro “A espinha dorsal da memória”.

Bráulio Tavares desconfia das pessoas que apresentam suas vidas de modo linear e seqüencial, principalmente quando estão falando das influências que vão determinar a sua produção artística. Mas não é à toa que, em apenas duas horas de conversa, faz duas referências ao tsunami de modernização que o então reitor Lynaldo Cavalcanti de Albuquerque promoveu na vida cultural da Paraíba, quando contratou uma série de jovens, em sua maioria cariocas e paulistas recém-formados.

Foi nessa mesma onda que se transferiram para Campina Grande quatro integrantes do Quinteto Armorial (Antônio José Madureira, Fernando Farias, Fernando Barbosa e Edilson Eulálio). “Eles se tornaram meus companheiros de farra”, lembra. Embriagou-se, então, de cerveja e da cultura popular nordestina, redescoberta pela juventude depois da publicação de “A Pedra do Reino”, de Ariano Suassuna.

A convivência com os cantadores também vai influenciar os seus textos teatrais, que começou a escrever muito mais por causa do amor pela atriz Arly Arnaud, sua primeira mulher e mãe de sua filha Maria, do que por afinidade com esse tipo de narrativa. Começa então a fase de “subempregos eventuais na área artística”, como explica com seu característico humor no texto “As profissões do poeta”, publicado em “Os Martelos de Trupizupe”. Fez muito sucesso como cantador do espetáculo “Oxente, Gente, Cordel”, com o qual fez temporadas, sempre com casa cheia, em Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília.

Nessa mesma época, escreve “Quinze Anos Depois” e “O Casamento de Trupizupe com a Filha do Rei”, ambas escrachadas comédias populares, que iriam antecipar a estética que consagrou em “Brincante” e “Segundas histórias”, feitas em parceria com Antonio Nóbrega na década de 1990. Para ele, porém, o verdadeiro ponto de contato entre esses dois momentos é o mesmo que une todas as suas facetas: a palavra escrita. “Foi com ela que me tornei letrista, dramaturgo, jornalista e roteirista.”

Algumas pessoas o criticam por fazer várias coisas ao mesmo tempo, ora chamando-o de pretensioso, ora chamando-o de superficial. Para enxergar as invisíveis conexões entre uma cantoria de viola e a escrita automática de Breton, basta ler Braulio Tavares. Ainda que você só possa fazer isso vendo o cantador de “Parahyba, Mulher Macho”, filme de Tizuka Yamazaki sobre a vida de Anayde Beiriz, onde o escritor Braulio Tavares mais uma vez rouba a cena.


(*) Julio Ludemir é jornalista, escritor e autor de “Lembrancinha do Adeus”, entre outros. Esse texto foi publicado na revista Continente Cultural n.º 51, de março de 2005.

Um polaco que falava javanês























Ademir Assunção (*)

O encontro foi numa tarde de outubro de 1986, no apartamento da cantora e compositora Neusa Pinheiro, na rua Apinagés, bairro Sumarezinho. Leminski estava em São Paulo para dar um curso promovido pela editora Brasiliense: Poesia em Cinco Noites

Não lembro se chovia ou fazia sol. Lembro bem que ele tinha pressa (mas não aquela pressa competitiva, tão em moda nesses tempos de yuppismo globalizante). Talvez porque já percebesse que sobrava pouco tempo de vida. Muito também porque era dono de uma personalidade intensa, ligada o tempo todo, marcada por um sentido de urgência.

Esta personalidade eletrificada, de um poeta em tempo integral, transparece em toda a sua obra. Em Leminski, o foco de interesses não está centrado num cânone restrito. 

Sua multiplicidade atrai referências de diversas épocas e culturas: da poesia clássica chinesa ao blues afro-americano, da patafísica de Jarry ao vigor samurai de Yukio Mishima, dos clássicos gregos ao rock & roll, do haicai japonês ao tropicalismo, de Cruz e Souza a Leon Trotsky, de James Joyce a John Fante, de Samuel Beckett à Cartola, de poemas do Egito Antigo ao videotexto, do supraerudito ao supremo popular, do universo cósmico de uma biblioteca aos movimentos mundanos.

Não se confunda essa capacidade imantadora com um simples ecletismo oportunista. Não. Ciente de que arte e cultura são matéria viva, para vivos, Leminski soube construir pontes, estabelecer links entre ricos tecidos culturais. Onde houvesse inconformismo, densidade, criatividade extremada, lá estava ele. Dono de vastíssimo repertório, está decibéis acima do neochique intelectualismo (reaça pra caralho) que graça e glosa pelas plagas brasileiras.



Embora muitos tentem minimizar a sua importância, ora situando-o como um simples apêndice concretista ou tropicalista, ora como um mero frasista de espírito polêmico (o que disseram de Oswald de Andrade?), ou ainda apontando dedos para um suposto looping decadente no final de sua breve vida, o tempo certamente vai recolocá-lo em seu devido lugar: como um dos poetas brasileiros fundamentais dessa metade de século. Se tal afirmação ainda parece exagero, que respondam: quais outros nomes poderiam substituí-lo?

Mas de afirmações de "maior poeta", "um dos mais importantes", e coisas do tipo, o inferno está cheio. O importante é saber: por que Leminski tem tal estatura?
Um pouco de contexto não faz mal a ninguém, ainda mais em se tratando de alguém que fez questão de alterar o texto para bagunçar o contexto: "Sou daqueles que se colocam dentro de uma perspectiva histórica" – disse em uma de suas primeiras longas entrevistas, à Almir Feijó (revista Quem,1978).

Leminski nasceu em 1944, um ano antes da explosão da bomba atômica em Hiroshima. O cogumelo atômico estilhaçou definitivamente a realidade. E imprimiu um sentido de urgência à geração que veio ao mundo sob a sua enorme sombra ameaçadora. De repente, havia a impressão de que nada poderia ser deixado para o dia seguinte, simplesmente porque não havia mais certeza de que haveria o dia seguinte.

O holocausto atômico não se resumiu à Hiroshima. Através das imagens (da fotografia, do cinema), explodiu no mundo inteiro. Com a tecnologia avançada dos meios de comunicação de massa, o planeta foi se tornando cada vez menor e uma nova era se instaurou, de maneira um tanto dramática. Bem vindos à Idade Mídia.

Tudo começou a acontecer muito rapidamente, num século que já se inaugurara deslizando sobre os trilhos dos bondes elétricos e em poucas décadas fazia as notícias voarem pelos ares via satélite. 

Em Understanding Media, Marshall McLuhan escreve que "a velocidade elétrica mistura as culturas da pré-história com os detritos dos mercadólogos industriais, o iletrado com o semi-letrado e o pós-letrado".



E onde está Leminski no meio dessa chuva de estilhaços? Em uma espécie de manifesto, abertura para uma antologia de poetas jovens à época (revista Pólo Inventiva, 1978), organizada com Alice Ruiz, ele se autositua, junto de seus pares de antologia, na "geração 68": uma geração marcada pela rebeldia contra cânones autoritários, por uma ampliação das experiências poéticas (e humanas), eletrificação da sensibilidade, inconformismo, utopias, mas também, já naqueles anos (conforme antevê com lentes precisas) sofrendo as conseqüências de um "acirramento da competição na luta pela sobrevivência, a níveis darwinianos".

É bem esclarecedor o modo como o poeta focaliza alguns aspectos do contexto histórico e cultural em que aparece a "geração 68": "contestação, rebelião estudantil na França, "primavera em praga",/ os "powers" (black, red, gay, women's lib), a pílula, o aborto,/ o martírio do vietnã/ radicalização em sentido socialista, na américa latina,/ psicodelismo, zen, sociedade alternativa/ rock/ homem na lua, mcluhan, aldeia global, o meio é a mensagem/ contracultura".

Essa consciência do seu "ponto de partida" está expressa em uma entrevista a Régis Bonvicino (jornal GAM, 1976), na qual evidencia seu ímpeto de interferir em grandes contextos culturais, através de uma atuação crítica-criativa no jornalismo, nas letras de música, nos poemas em videotexto: "Não dá mais tempo para ser ingênuo. Puro. Inocente. Perante a investida multinacional da tecnocracia, tem que responder com uma plena consciência dos meios, códigos e linguagens".

Que esse breve esboço do contexto em que surge não sirva para reduzir Leminski a um poeta típico dos anos 60 ou 70. Ledo engano ou deslavada sacanagem de yuppies que pretendem aprisionar qualquer tentativa de rebeldia a pulsões demodée, "coisa do passado". 

Leminski era um erudito. Conhecia poesia profundamente. Mas não se enquadrava no modelo de intelectual bem-comportado. Era um radical. "Um bandido que sabia latim".

Tudo somado, o sentido de urgência e a necessidade de rebelião marcaram profundamente sua poesia. É da primeira safra o poema seguinte:
nunca quis ser
freguês distinto
pedindo isso e aquilo
vinho tinto
obrigado,
hasta la vista
queria entrar
com os dois pés
no peito dos porteiros
dizendo pro espelho
– cala a boca
e pro relógio
– abaixo os ponteiros


O fraseado rápido, telegráfico, musical, chega junto, surpreendente como o golpe de espada de um samurai experiente. O mesmo tom está impresso em outra peça da mesma fase, na qual demonstra sua malandragem no trato com a "função poética":
pariso
novayorquizo
moscoviteio
sem sair do bar
só não levanto e vou embora
porque tem países
que eu nem chego a madagascar


Num lance "quase chinês", o poeta transforma substantivos em verbos ("pariso", "novayorquizo", "moscoviteio") dando um autêntico giro pelo planeta sem sair do próprio terreno da linguagem – ao contrário: contraindo-a ao máximo. 

Em três versos assimila conquistas vitais dos estudos modernos de linguagem. Mas ainda, dentro desse poema, e dentro da própria linguagem, insere uma de suas marcas registradas: o humor, o nonsense.



Se Oswald de Andrade foi um dos primeiros a incorporar em sua poética a rapidez dos primeiros anos do século, e os poetas concretos a perceber a simultaneidade dos novos tempos, Leminski já faz parte de uma geração que teve a sua sensibilidade "reprogramada pelos modernos meios de comunicação de massa", como teorizou McLuhan, dando um passo além ao clássico ensaio de Walter Benjamim, "A Obra de Arte na Era da sua Reprodutibilidade Técnica".
Talvez seja o primeiro poeta brasileiro, junto com Torquato Neto, com plena consciência de que o mundo estava irremediavelmente interligado via satélite. Nisso, não há uma adesão a-crítica, mas uma percepção de que "os tempos já eram outros".
A par das rebeliões comportamentais, da negação da persona do intelectual clássico, Leminski sabia da necessidade de uma outra rebelião: a rebelião da linguagem. 

Com maestria, jogou toda a sua energia poética contra o racionalismo linear aristotélico/cartesiano. Judoca zenbudista, desconfiava das palavras e remetia seus leitores à experiência concreta: no seu caso, a experiência com o próprio texto: em vez de refletir a realidade (como um bom escritor naturalista acreditaria), transformava a escrita numa realidade em si.
Com isso, seus poemas, conscientemente elaborados, vão se transformando em quase koans. As frases rápidas, carregadas de musicalidade e sentidos se encarregam de dar um nó no pensamento lógico/cartesiano e o poema vai se tornando uma experiência que compreende cada vez mais uma totalidade corporal:
quem nunca viu
que a flor, a faca e a fera
tanto fez como tanto faz,
e a forte flor que a faca faz
na fraca carne,
um pouco menos, um pouco mais,
quem nunca viu
a ternura que vai
no fio da lâmina samurai
esse, nunca vai ser capaz.

A estratégia já estava sendo semeada desde Catatau, o primeiro livro. Não por acaso o personagem central é Descartes, assombrado pela paisagem tropical do Brasil, atacado pelo zumbido intermitente dos mosquitos e cercado por jibóias, antas e preguiças. 

Com seu pensamento lógico, o filósofo francês não consegue decifrar a paisagem do Novo Mundo, e espera alguém que lhe traga as explicações, como um personagem beckettiano "esperando Godot".
No texto "Transmatéria Contrasenso", espécie de prefácio do livro Distraídos Venceremos (trocadilho zen com o bordão de esquerda "Unidos Venceremos"), Leminski explicita, mais uma vez, sua flecha lançada em direção a um alvo "longamente almejado: a abolição (não da realidade, evidentemente) da referência, através da rarefação". Como epígrafe ao livro, re-utiliza de maneira sintomática um trecho do próprio Catatau:
"Que flecha é aquela no calcanhar daquilo? Pela pena, é persa, pela precisão do tiro, um mestre. Ora, os mestres persas são sempre velhos. E mestre, persa e velho só pode ser Artaxerxes ou um irmão, ou um amigo, ou discípulo, ou então simplesmente alguém que passava e atirou por despautério num momento gaudério de distração".
Distraídos Venceremos foi malhado por parte da crítica. Muitos não perceberam o passo adiante na estratégia do poeta.
O passo adiante significou também um adensamento de sua poesia e uma visível mudança de tom: o bom humor da fase inicial dá lugar ao ceticismo. Leminski já pressentia a morte se avizinhando. Os próprios títulos dos dois últimos livros de poesia que deixou organizados (publicados pós-morte) já indicam isso: La Vie en Close e O Ex-estranho. 

Antes, havia traduzido Sol e Aço, de Yukio Mishima, um tratado de morte, o suicídio ritual do último dos samurais, e Malone Morre, de Samuel Beckett.

Mas paralelo à constante autobiográfica, é possível ler na fase final da sua produção poética, uma profunda negação da caretice yuppie que predominou nas últimas décadas do século. Possivelmente o poeta se decepcionava com a realidade cruel, estúpida e mesquinha do Brasil oficial.

Talvez não tivesse estômago, caso sobrevivesse mais alguns anos, para deparar-se com o narcisismo (muito bem remunerado) de antigos rebeldes que hoje cultivam o patético prazer de mostrar suas caras e casas na Caras, e insistem em manipular a história cultural sempre a seu favor.


Não seria uma evidente tomada de posição o que transparece no poema "1987, Tende Piedade de Nós"?:
anos ímpares
são anos vítimas
anos sedentos
de sangue e vingança
todo gozo será punido
e o deserto será nossa herança

E como se pode ler o poema sintomaticamente intitulado "Campo de Sucatas"?:
saudade do futuro que não houve
aquele que ia ser nobre e pobre
como é que tudo aquilo pôde
virar esse presente podre
e esse desespero em lata

Ambos os fragmentos pertencem ao livro póstumo O Ex-estranho (1996), para o qual deixou anotado um pequeno texto introdutório: "Este livro... expressa, na maior parte de seus poemas, uma vivência de despaisamento, o desconforto do not-belonging, o mal-estar do fora-de-foco, os mais modernos sentimentos".

Paulo Leminski, que um dia definiu a poesia como "a liberdade da minha linguagem", deixou, de fato, uma poesia impregnada de vida e uma vida impregnada de poesia. Não se escondeu atrás dos versos: ao contrário, abriu o peito (e o cérebro) e expôs as experiências de um ser único passando pelo planeta e deixando sua marca, como fizeram Rimbaud, Pessoa, Whitman e tantos outros. Leminski tinha o que dizer e o soube dizer. Essa a diferença.

(*) Ademir Assunção é jornalista, poeta, compositor e músico. Este texto foi publicado na revista MEDUSA n.º 6, p. 2-6, 1999

Juarez Machado, um gênio indomável



Juarez Machado nasceu em Joinville (SC) em 16 de março de 1941. É pintor, escultor, desenhista, mímico, caricaturista, cenógrafo, escritor, fotógrafo, ator e designer. Passou sua infância em Joinville na companhia da mãe Leonora e de seu irmão Edson. Seu pai era caixeiro viajante, trabalho que o ausentava bastante do lar.

Aos 14 anos, Juarez Machado trabalhou em uma oficina gráfica, no setor de produções de rótulos de remédios, embalagens e cartazes para laboratórios. Nesse processo de criação, entre pincéis, tintas e papéis, um profissional estava sendo formado.

Como sua cidade natal era muito pequena, com características do velho mundo (grande parte da população era de origem alemã sendo, consequentemente, sua arquitetura semelhante a da germânica), Juarez Machado resolveu explorar outras cidades, indo assim para Curitiba aos 18 anos. Matriculou-se na Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Logo ao se formar, realizou sua primeira individual na Galeria Cocaco de Curitiba, dando início a sua carreira de contínuo sucesso.

Em 1965, mudou-se para o Rio de Janeiro – cidade que, como São Paulo, tinha maiores oportunidades e era onde tudo estava acontecendo – conseguindo, aos poucos, conquistar seu espaço. Na Cidade Maravilhosa, se tornou amigo de Millôr Fernandes, Ziraldo, Fortuna, Jaguar, Claudius, Zélio e de toda a turma do Pasquim, do qual se tornou colaborador.

Mudou para Paris em 1978, onde fez seu terceiro ateliê – deixando o de Joinville e o do Rio de Janeiro (ambos em atividade) – mas antes, visitou Nova York, Londres, Itália, Dinamarca, Chipre, Israel e Grécia onde tomou partido dos acontecimentos do universo artístico de cada região.

Ganhou o prêmio da 5ª Bienal de Arte da Itália, prêmio Cenários em Televisão, o prêmio “Barriga Verde” de Artes Plásticas de Santa Catarina, o prêmio Nakamori (Japão) pelo melhor livro infantil, entre outros.

Sua cidade natal, deu-lhe o título de Cidadão Honorário em 1982, e o presidente da República concedeu-lhe a Ordem do Mérito de Rio Branco, em 1990.

Entre os sucessos de suas exposições, sua única reclamação é sobre o conservadorismo dos museus que, até hoje, não valorizam artistas do Novo Mundo provocando uma certa ausência de artistas da América do Sul.

Em relação a sua vida pessoal, Juarez Machado é orgulhoso em afirmar seu forte apego à família. Seus filhos, influenciados pela profissão do pai, optaram por seguir áreas de comunicação como produção de vídeos, cinema e TV, computação gráfica e desenhos animados.


No texto “A arte de ser artista”, Juarez Machado conta um pouco de sua história. Curtam:

O primeiro foi Fritz Alt, o segundo Eugenio Colin, ambos mortos.

Portanto, hoje, sou o mais velho artista joinvilense vivo. Título que não tem grande valor, também não quero que beijem o meu anel e nem se ajoelhem para pedir a benção. Apenas me dou o direito de contar uma pequena história aos jovens artistas de Joinville. Sentindo-se ameaçados, têm medo de fantasmas e não conseguem dormir. Traumas antigos da história de nosso povo, colonizados versus colonizadores.

Aprendi vendo isto como uma grande avenida de duas mãos. Os negros americanos fizeram da música dos brancos – Bach, Mozart, Schubert, e outros – a melhor música do mundo, o jazz. Na América Central, da música africana misturada à dança de salão, entre a valsa e minueto, fizeram o melhor ritmo do mundo, a salsa.

No Brasil, os escravos, com os restos da comida dos brancos, fizeram o melhor prato do mundo, a feijoada.

Toda avenida também tem contramão. Os ingleses no começo do século passado vieram ao Brasil trazendo o futebol. Rapidamente aprendemos e jogamos ainda melhor. Nos tornamos “O País do Futebol”. Hoje perdemos até para os franceses, vergonha que ainda sinto.

Éramos o País do Café, considerado o melhor do mundo, desde o século 18. Hoje o mundo toma café no “Starbucks”, americano, com fama de ser o pior. No período do cacau foi a mesma coisa. Nossa música, a bossa nova, foi para os Estados Unidos e foi tomada pelos americanos. Os músicos brasileiros estão procurando suas origens e esqueceram que já tínhamos encontrado a nossa identidade. Perdemos mais um título.

É vendo os erros e as experiências alheias que se aprende. Aproveitem a minha disponibilidade que é extremamente passageira. Não vim ao mundo para impor, mas deixar transparecer.

Na beira dos meus 70 anos, com a cara cheia de rugas, cabelos ralos, barba branca, porém com todos os dentes numa boca bastante afiada, digo a frase inicial:

– A vida é um grande espetáculo, cheia de surpresas e muitas ironias.

Em 1960, lá longe na história de Joinville – e minha também –, a nossa querida cidade só tinha uma rua principal, uma igreja católica, outra protestante, dois cinemas, uma sorveteria, um bordel, dois times de futebol, alguns bares e um só hotel, sem nenhuma estrela. O prédio mais alto da cidade era a torre do Corpo de Bombeiros, que é nosso orgulho até hoje. Duas rádios, um jornal...

Ah! sim, ia me esquecendo, um rio Bucarein, bonito e limpo, com três clubes de regatas, um movimentado porto com navios de bom calado e uma pequena praia. Três escolas públicas e um único colégio, o Bom Jesus, somente até a oitava série e nada mais.

Universidade? Ninguém sabia o que era. Museus?... Nem pensar. Teatro?... Muito menos. Recém-inaugurada, uma biblioteca, e na fachada, um painel do nosso primeiro artista, Fritz Alt.

Menino, fui um dos primeiros associados para ver figuras, ler e emprestar livros. Nas prateleiras, não havia um só livro de história da arte, biografia de artista ou museus do mundo. Nas paredes das casas dos moradores de Joinville, nenhum quadro. Salvo uma reprodução da “Santa Ceia” de Michelângelo na sala de jantar e outra reprodução sobre a cama do dono da casa, “Jesus refletindo solitário no Monte das Oliveiras”, e na cozinha, um calendário do Laboratório Catarinense com as fotos dos Alpes Suíços.

A cidade era feita apenas de fábricas e operários, e o tempo era medido pelo apito de cada fábrica. A palavra arte era sinônimo de “peraltice de criança”. Cultura era confundida com tradição.

Da festa da cerveja com música tirolesa até a quermesse da igreja nos dias santos, ao som de músicas religiosas e sertanejas no serviço de autofalantes, nada de mais emocionante acontecia. Tainha no inverno, caranguejo no verão e goiaba no pé o ano todo, e assim o tempo ia passando.

Os eventos mais próximos da cultura eram a Festa das Flores uma vez ao ano, nos salões da Sociedade Harmonia-Lyra. Aos domingos a banda do 13° BC (Batalhão de Caçadores), tocando marchas militares e até mesmo algumas músicas clássicas no coreto da Praça Lauro Müller.

Aos 19 anos, eu já estava de malas prontas para partir em busca do meu sonho maior... Ser um artista completo. Pintor, escritor, poeta, escultor, desenhista, ator. Conhecer museus, catedrais e monumentos. Caminhar por cidades, vilas e países. Conversar com pessoas – amigas, estranhas, professores, curiosos, poetas, sábios e loucos. Navegar em palácios, castelos e avenidas. Ir além da linha do horizonte e atravessar mares, rios e montanhas.

Descobrir novos paladares além da torta de banana da padaria Brunkow. Escutar sons mais melodiosos do que o apito das fábricas. Sentir refinados perfumes, além do Leite de Rosas que minhas primas usavam. Ser alguém bem informado e um aluno genial da mais reputada escola de arte do mundo: a Escola de Florença.

Com uma mala de papelão, uma pasta com alguns desenhos e oito dinheiros no bolso, em pé, dentro de um ônibus da Cia. Penha, depois de seis horas de viagem, cheguei em Curitiba. Só tinha feito 120 quilômetros. Para chegar em Florença, na Itália, ainda faltavam dez mil quilômetros e mais tantos zeros nos meus oito dinheiros. “Faço uma pequena parada, estou com fome”, pensei.

Na própria rodoviária comi o mais gostoso sanduíche da minha vida. Pão com duas fatias de sardinha em lata. Jamais esquecerei. Foi a luz do meu caminho. O Norte da minha bússola. Foi o canto dos anjos. Uma hora depois, me matriculei na escola de Música e Belas-Artes do Paraná. Paguei adiantado dois meses por um quarto de pensão de estudantes, com direito a comida e roupa lavada... et voilà! O começo tinha sido dado.

Por ironia, todos os meus professores tinham sido da Escola de Florença. Eram italianos ou alemães. Fui o último aluno desta culta geração de mestres. Muito jovem, feliz, tinha encontrado o meu ambiente, os artistas e outros jovens que pensavam como eu.

Em Joinville, meus amigos eram filhos de operários ou filhos dos donos das fábricas. Havia até mesmo uma certa discriminação por eu não querer ser engenheiro ou médico, e muito menos trabalhar numa fábrica.

Na minha sede de conhecer, estudei, pintei, modelei, fiz cenário para televisão e teatro, desenhei para jornais e revistas. Fiz minhas primeiras exposições, ganhei meus primeiros prêmios em salões de arte.

Nas férias, não voltava para Joinville, apesar de ter deixado uma namorada me esperando que já estava namorando um outro, um estudante de medicina (que bom para ela). Aproveitava este tempo para viajar. Ir para o Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Salvador, Recife, centros urbanos importantes culturalmente. Visitar museus, ir aos teatros, visitar as oficinas de gravuras em metal e pedra, me deslumbrar na Bienal de São Paulo, fazer estágios com artistas mais experientes, novas técnicas, novos materiais.


Cinco anos depois, formado pela escola de Música e Belas-Artes do Paraná, agora, com um jogo de cinco malas em couro negro e várias pastas e rolos com meus trabalhos, fui morar no Rio.

– Que maravilha!

Começar tudo de novo. Outras amizades: cartunistas, jornalistas, arquitetos, músicos, diretores de teatro e cinema, escritores. Todos em Ipanema ditando o novo comportamento de vida para o Brasil inteiro em plena ditadura militar. Orgulhoso, sentia que como artista eu fazia parte da história de um novo tempo.

Revolução total. Nas ruas, o Exército confronta com cassetetes as manifestações dos estudantes e intelectuais. Nas praias euforia total, revolução sexual, liberação das mulheres, psicanálise, chopinho, Bossa Nova, rock e muita maconha. Novas ideias, novas informações, novas exposições.

Joinville tinha ficado distante, porém, sempre pensava com muito amor na minha querida cidade, e se um dia voltaria para abrir uma escola de arte para os jovens solitários e abandonados artistas.

Em direção oposta, comecei a fazer minhas primeiras viagens ao exterior. A primeira foi Israel. Conhecer e viver a cultura de um kibutz, a vida comunitária. De lá parti para Chipre, depois Grécia. Tudo parecia ser um filme de grandes aventuras de viver.

Cada ano uma nova viagem: Paris, Strasbourg, Londres e Nova York. Nunca como turista, mas como um sedento vampiro sugando todas estas culturas para depois digerir dentro de minha formação, meus valores, meus conceitos e até preconceitos e tentar ampliar os meus limites. Hoje tenho total certeza que a arte se alimenta da própria arte. Tal qual uma enorme serpente que começa a comer a ponta de seu rabo até chegar a sua cabeça.

Todos os movimentos artísticos – os gregos, romanos, etruscos, fenícios, arte africana, oriental, impressionista, dadaísmo, enfim, todas as correntes de todas as civilizações – , fizeram o corpo desta imensa cobra, até mesmo a arte contemporânea que já não é mais tão atual. Tudo começou lá, na pontinha do rabo da tal serpente.

Bem longe na história, um fulano, ainda meio macaco, pintou com o dedo um bisão nas paredes de pedra de sua caverna. Foi o primeiro pintor, muralista ou até mesmo o primeiro grafiteiro. A maravilha da vida e da humanidade é contada por meio da arte. A tarefa do artista é, com talento, registrá-la.

Continuei a trabalhar, viajar e vampirizar tudo que fosse possível. Sem mais voltar para minha querida e pequena Joinville do meu tempo de menino. Agora Florença tinha me ensinado a observar a vida, através de um microscópio ou telescópio, e fazia parte de minha rota habitual.

Já com quase 50 anos, com apenas uma pequena maleta e uma imensa bagagem artística/cultural, fui morar definitivo em Paris, terra dos artistas. E começar tudo de novo.

É muito mais excitante disputar com pessoas maiores do que você, por que tirar pirulito de criança é covardia. Somente para todos terem uma ideia, na França estão inscritos no sindicato (la maison des artistes) 50 mil artistas do mundo todo, e todos de alto nível. Sem deixar por menos, mais trabalho, mais viagens, montei atelieres em Montmartre, depois Veneza, Boston, e Los Angeles. Hoje faço de três a quatro exposições por ano em várias partes do mundo. Publico livros, tenho vários colecionadores pelo mundo e sou chamado respeitosamente de “cher maitre”.

Voltei para Joinville somente alguns anos atrás para pintar o mural de entrada do Centreventos Cau Hansen, “O Grande Circo”. Qual a minha grande e agradável surpresa? Joinville tinha mudado, tinha crescido, tinha ficado culta. Só se falava em arte, ballet, teatro, festivais, artistas, museus, escolas de arte, me senti muito feliz, Joinville tinha sido salva da mediocridade.

E eu se tivesse esperado um pouco mais, teria a escola de Belas-Artes de Florença na minha própria esquina. Não teria sacrificado tanto minha família e principalmente o menino sonhador e solitário de Joinville.

Fico muito feliz pelos meus caros jovens artistas joinvilenses.

Parabéns, vocês conseguiram! Não tenham medo de aprender e conhecer culturas, quanto mais melhor, para depois criarem a sua própria linguagem. Cada um terá o seu próprio estilo.

Cultura é fundamental, e confesso: “Jamais faria o transplante do meu coração, caso fosse preciso, com um médico doutor autodidata.”
























O Pai do Amigo da Onça




Desde que fez o primeiro rabisco de seu personagem, Péricles conviveu com o Amigo da Onça como se este fosse sua sombra. Entre brincadeiras e depressões, o humorista mais popular do país penou na vida apesar do sucesso. E acabou abandonando-a de maneira trágica.

Jota

O primeiro dia da vida de Péricles de Andrade Maranhão quase cai no dia 13 de agosto. O Amigo da Onça adoraria a data, bom motivo para uma piada. Mas Péricles deu sorte a acabou nascendo um dia depois, no dia 14 de agosto de 1924, no Recife. Passou sua infância no bairro do Espinheiro e por lá deve ter feito tudo o que um menino tinha direito naqueles tempos: armar arapucas, subir em árvores, quebrar vidraças, esfolar os joelhos. E também desenhar, é claro. Foi na revista do Colégio Marista, onde estudava, que publicou seus primeiros desenhos.

Mas a primeira notícia sobre Péricles quem deu foi o jornalista Anibal Fernandes. No Diário de Pernambuco de 5 de novembro de 1940 ele escreve sobre “um garoto que entrou pela redação com um rolo de desenhos”. Anibal termina o texto com um recado profético: “Guardem bem seu nome. Péricles Maranhão. Quem viver verá se ali não está um artista, sobretudo se tiver ambiente para estudar e produzir.”

Foi o mesmo jornalista quem ajudou Péricles a encontrar o tal ambiente. Dois anos depois, com muita coragem e uma carta de Anibal Fernandes recomendando seu nome a Leão Gondim de Oliveira, diretor de O Cruzeiro, o jovem Péricles percorreu o longo trajeto de Recife a então capital federal.


Péricles, de gravata, e logo atrás seu amigo Carlos Estevão, de óculos

No Rio de Janeiro, apresentou-se na redação da revista. Naquele Brasil ainda rural, mas já ensaiando seus primeiros passos rumo a industrialização, o veículo de comunicação mais importante era O Cruzeiro. Seu poderio era comparável ao da TV Globo hoje em dia.

Péricles começou na revista no dia 6 de junho de 1942. Era o mais novo em uma equipe de jornalistas que empolgava o país com suas reportagens, fotografias e humorismo. Neste mesmo ano publica em O Guri e no Diário da Noite as encrencas de Oliveira, O Trapalhão, seu primeiro personagem. Nesta tira já aparecem as figuras pitorescas do Rio que marcaram seu trabalho.

“Para você ver que desde o início ele já estava atento a estes tipos”, ressalta o humorista Fortuna, que nesta época publicava seus primeiros trabalhos na imprensa. “O negro Laurindo, que acompanhava o personagem principal, por exemplo, era um malandro de camisa listrada.”

Em 1943, alguém teve a ideia de criar um personagem fixo para a revista. Já tinham até o nome, adaptado de uma anedota que fazia muito sucesso na época:

Dois caçadores conversam em seu acampamento.

– O que você faria se estivesse agora na selva e uma onça aparecesse na sua frente?

– Ora, dava um tiro nela.

– Mas se você não tivesse nenhuma arma de fogo?

– Bom, então matava ela com meu facão.

– E se você estivesse sem facão?

– Apanhava um pedaço de pau.

– E se não tivesse nenhum pedaço de pau?

– Subiria na árvore mais próxima!

– E se não tivesse nenhuma árvore?

– Saía correndo.

– E se você estivesse paralisado pelo medo?

Então o outro, já irritado, retruca finalmente.

– Mas afinal de contas, porra, você é meu amigo ou amigo da onça?...


O personagem era o Amigo da Onça. Precisavam de alguém para traçar seu perfil e desenhar as piadas. “Convidaram o Augusto Rodrigues, que fazia o maior sucesso na época. Não sei por qual motivo o Augusto recusou”, recorda Fortuna. Renovador da charge política brasileira, Augusto Rodrigues realmente declinou do convite de entrar na dança com o Amigo da Onça. “Ah, eu não faria um tipo que já veio criado”, ele conta em seu ateliê no Largo do Boticário, no Rio de Janeiro. Hoje, Augusto Rodrigues é um pintor respeitado.

Lembrava-se pouco de Péricles, que depois foi convidado a desenhar o Amigo da Onça. “Era bem alto, sei que bebia num bar perto do Lido.” Exagero do baixinho Augusto Rodrigues. Péricles tinha 1,75m e andava sempre bem vestido, de paletó de linho e bigode bem aparado. Parecido com a cria. Mas era por ali mesmo, próximo à sua casa, os locais que frequentava. “Convivi pouco com ele”, continua Augusto Rodrigues. “Péricles e Carlos Estevão eram tipos mais simplórios, ligados no emprego. Não tinham inquietação artística. Intelectualmente suas preocupações não tinham interesse pra mim”. Carlos Estevão foi o desenhista que, após a morte de Péricles, continuou fazendo o Amigo da Onça.


No início da década de 40, a imprensa argentina influenciava bastante o jornalismo brasileiro, principalmente ao diretor de O Cruzeiro. Foi de páginas portenhas que ele garimpou a ideia do Amigo da Onça. Outro menino-prodígio trabalhava em O Cruzeiro e lembra muito bem de tudo. Ziraldo Alves Pinto chegou na revista “por cima”, como ele diz. Sua carta de recomendação era endereçada à mulher de Leão Gondim. E basta folhear amareladas coleções da revista para ver em primeiro lugar no expediente o nome de Amélia Whitaker Gondim de Oliveira.

Além de desenhar na revista, Ziraldo foi também seu Relações Públicas. E tinha ótimas relações com a diretoria. “O Leão era apaixonado pelas coisas argentinas”, lembra Ziraldo. “Principalmente pelo desenhista Divito. Ele pegou os recortes de Las Chicas del Divito e falou para o Alceu: toma, faz igual. Então ele fez As Garotas do Alceu. Já o Amigo da Onça foi tirado de El Inimigo del Hombre, também do Divito”.

Ziraldo entrou “por cima” e entrou com tudo. Iniciou uma reformulação gráfica que lhe “criou problemas com todo mundo”. Inclusive com Péricles, que fazia a página de maior sucesso da revista e por isso não engolia o fato daquele mineiro extrovertido chegado de Caratinga já ter até telefone em sua mesa, coisa que ele, Péricles, não tinha. E além da revista, Ziraldo queria reformular também o Amigo da Onça. “Eu falava para o Péricles: vamos mudar um pouco o desenho. Está muito quadrado. E dava pra ele a Playboy, a Look, Paris-Match, revistas que traziam os cartunistas avançados da época. Ele levava pra casa para estudar. Depois jogava as revistas em cima da minha mesa dizendo: o povão não quer isso!”


E neste ponto não havia dúvidas. De povão, o autor do Amigo da Onça entendia. Desde que foi publicado pela primeira vez no dia 23 de outubro de 1943 até o último desenho em 3 de fevereiro de 1962, seu personagem teve 18 anos de vida bem vivida. Gozou de um sucesso que não teve paralelo na história da imprensa brasileira. E nem terá, pois os tempos mudaram e já não se fazem mais sucessos como antigamente.

Péricles teve que se virar para criar mais de mil situações propícias para o Amigo da Onça sacanear alguém. E para isso fazia qualquer coisa, chegando a desenhar o personagem sacaneando o próprio autor. Ou até o leitor. O Amigo da Onça foi chefe e subalterno, delegado de polícia e preso, náufrago e comandante, retirante nordestino e gaúcho, criança e adulto. Tudo para contentar os milhares de leitores que corriam ávidos para a sua página quando O Cruzeiro lhes chegava às mãos. Depois de rir da piada, ainda colavam o desenho de Péricles na parede pra todo mundo ver. E que esforço para agradar a plateia. O personagem chegou mesmo a se travestir com biquíni e cair nos braços de um marmanjo em um baile de carnaval, só para, no momento “ai, ai, ai, está chegando a hora”, revelar-se o Amigo da Onça.


Mas a caracterização mais usada foi a de... Amigo da Onça. Na favela, em reuniões elegantes do café society ou até mesmo em plena praia, lá está ele com seu indefectível paletó de linho branco, calças pretas e gravata borboleta. Às vezes, para esnobar, está fumando de piteira. O mesmo olhar cínico na bem-equilibrada mistura de malandro da Lapa e grã-fino da vida mundana do Rio de Janeiro. Também deu conselhos a Getúlio Vargas e dedurou um subordinado do Marechal Lott que estava mais para Jânio. Porém, metia-se pouco com política. Insinuava-se com mais desenvoltura na crítica de costumes. Mesmo que tivesse que apelar para o racismo ou o preconceito.

Péricles era o contrário de tudo isso. É sempre lembrado como um homem de bom caráter, excessivamente tímido, que não soube aproveitar o imenso sucesso que teve. Angélica Braga Guimarães, com quem se casou em setembro de 1949, separando-se seis anos depois, recorda o ex-marido como um brincalhão, que alegrava qualquer ambiente em que chegava com suas piadas e brincadeiras.

Ela trata com carinho a memória dele. “Olha ele aqui quando ganhou seus primeiros quinhentos cruzeiros. Não está bonitinho?”, fala de Péricles, no Rio de Janeiro, onde mora até hoje. Apontava uma foto dele ainda menino. A chuva que caía naquela tarde parecia penetrar em seus olhos enquanto mostrava fotos, destacava trechos de jornais antigos e falava dos desenhos originais que mantém consigo em seu pequeno museu de ternura e carinho.


O lado brincalhão do humorista também aflorava quando ele ia à redação entregar seus trabalhos. Preferia desenhar em casa. Às vezes deixava na redação de O Cruzeiro até quatro desenhos adiantados e demorava a aparecer por lá. Algumas raras ocasiões subia até o restaurante da empresa. O organizador do tal restaurante só podia estar querendo acirrar as contradições sociais, pois o salão era dividido entre os funcionários mais humildes e o pessoal da diretoria. A precária divisão era feita com vasos de plantas.

O problema é que a cozinha ficava do lado do pessoal do bandejão. Para chegar até a mesa da diretoria os pratos tinham que passar entre as mesas dos funcionários. Era aquele desfile de assados e saladas magníficas entre o pessoal do bandejão que comia seu arroz com feijão e alguma mistura. “Eu sentava com a diretoria”, conta Ziraldo. “Às vezes o Péricles aparecia por lá. Era um populista! Sentava com o pessoal do bandejão e ficava fazendo piada sobre a gente!” Uma situação digna de seu Amigo da Onça. Se o personagem tivesse caráter, é claro.


Mas o brincalhão Péricles também tinha seus momentos de tristeza. E foi num desses dias em que a tristeza bateu mais fundo, que o humorista resolveu escrever a palavra fim. Deixou uma dúvida para os amigos e os fãs: qual o motivo que levou uma das pessoas mais famosas do país a deixar seus leitores com um nó na garganta? Muitos correram atrás de explicações poéticas, fazendo alusões à sua convivência diária, ou pelo menos semanal, com seu herói sem nenhum caráter.


A revista O Cruzeiro tinha entre seus temas preferidos reportagens sensacionalistas sobre xifópagos, pessoas que nascem ligadas fisicamente por causa de problemas de gestação. Por ironia do destino, ou sei lá de que, essa era mais ou menos a situação de Péricles e o Amigo da Onça. Para os leitores, era como se eles tivessem o corpo grudado um no outro. Uma inevitável confusão que aborrecia o autor.

“Ele não tolerava isso”, conta sua ex-mulher. Mas é improvável que fosse se matar por uma coisa dessas. Talvez a data de sua morte seja um dado mais importante. “Seu suicídio foi próximo a uma dessas datas de grande chantagem emocional”, analisa Fortuna. “Hoje em dia não é tanto. Mas na época era uma barra. No Natal, por exemplo, me dava vontade de partir para uma sonoterapia e só acordar quando aquela data tivesse passado.”


Chegou o ano de 1962. Botafogo e Santos se enfrentavam no Marcanã colocando frente a frente Pelé e Garrincha, duas estrelas que iriam brilhar neste ano de Copa do Mundo. Elas usavam Pond’s e o país estava mergulhado em uma de suas piores crises políticas. Nas páginas da primeira O Cruzeiro do ano, que trouxe na capa a mocinha Tereza Rachel, as garotas do Alceu já usavam biquíni e dançavam o twist. Em anúncios de página inteira, a Caterpillar oferecia seus tratores para “abrir estradas pelo país”. A crise política, resultado dos atos de Jânio Quadros, um dos maiores “amigos da onça” deste país, misturava Jango, Amaral Peixoto, Juscelino Kubitscheck e Tancredo Neves.


Na página 58 e em seu editorial, a revista dava a última notícia sobre Péricles de Andrade Maranhão, seu mais popular humorista. Ele havia aberto o gás no último dia do ano anterior. Péricles não ficou para ver o bode que deu.

(texto publicado na revista “O Amigo da Onça”, da editora Busca Vida, em 1987, com edição, planejamento visual e capa de Jota)

Para ler o que Millôr Fernandes escreveu sobre Péricles, clique aqui.