segunda-feira, 1 de junho de 2015

O Grande Mestre Fortuna



Reginaldo José de Azevedo Fortuna nasceu em São Luís no dia 21 de agosto de 1931 e tinha como codinome o próprio sobrenome.

Considerado um dos maiores cartunistas do Brasil, ainda criança conheceu o semanário A Manhã, que se transformou em uma de suas publicações favoritas.

Aos 14 anos, após perder o pai, Fortuna mudou-se com sua mãe para o Rio de Janeiro.

Seus primeiros trabalhos na imprensa foram publicados no final da década de 40 na revista infantil do Sesi (“Sesinho”), A Cigarra, O Cruzeiro e Revista da Semana.

No final da década de 50, o estilo inconfundível de Fortuna apareceria nas belíssimas páginas da revista Senhor.



Em 1964, às vésperas do golpe militar e em parceria com Millôr Fernandes, Ziraldo, Jaguar, Claudius e Sérgio Porto, lançam o quinzenário colorido O Pif-Paf, publicação que sobreviveu até o oitavo número e serviu de base para o mais importante jornal de oposição à ditadura, O Pasquim.

Nessa época também foi chargista no jornal carioca Correio da Manhã.


Quando o Correio da Manhã foi extinto no final dos anos 60, eis que surge O Pasquim, produzido por Fortuna, Tarso de Castro, Millôr Fernandes, Ziraldo, Paulo Francis, Luiz Carlos Maciel, o novato Henfil e dezenas de outros colaboradores.

No início dos anos 70, Fortuna mudou-se para São Paulo e assumiu o posto de diretor de redação da revista Cláudia, onde passou a dar conselhos às leitoras sob o pseudônimo Ana Maria.

Em seguida tornou-se editor de arte e capista da revista Veja, onde ficou até 1975.

Nesta mesma época, em parceria com Luiz Gê, Paulo e Chico Caruso, Laerte, Cláudio Paiva e Nani, Fortuna lança a revista O Bicho, pioneira das histórias em quadrinhos inteiramente nacionais e, como ele dizia, “não-enlatadas”, onde surge com a personagem “Madame e seu bicho muito louco”.

A partir de 1998, os dois personagens se transformariam no símbolo do troféu HQ Mix, o mais importante das histórias em quadrinhos do país.

Em 77, Fortuna vai para A Folha de São Paulo fundar com Tarso de Castro o suplemento “Folhetim”, uma espécie de Pasquim encartado no próprio jornal.

A partir daí inicia uma nova fase como chargista editorial.

Fortuna saiu da Folha em 84, logo depois da campanha das Diretas, e ficou um longo tempo fora da grande imprensa, retornando com charges semanais para a Gazeta Mercantil.


Foi considerado um dos 100 melhores cartunistas do mundo em 1977 pela Casa do Humor e Sátira de Gabrovo, da Bulgária.

Participou das antologias “Seis desenhistas brasileiros de humor” (Ed. Massao Ohno, 1962), “Hay  gobierno?” (Ed.Civilização Brasileira, 1964), “Dez em humor” (Ed. Expressão e Cultura, 1969).

É autor dos livros “Aberto para balanço” (Ed. Codecri, 1980), “Diz, logo tipo” (Kraft/Studioma, 1990) e “Acho tudo muito estranho (já o Professor Reginaldo, não)” (Ed. Anita Garibaldi, 1992).

Na sua série “Retratos 3X4 de alguns amigos 6X9”, Millôr Fernandes assim o definiu:
“Fortuna tem trinta e poucos anos de altura, a personalidade dele mesmo, riso hipotético, traço desconfiado e é tarado por coisas que detesta. Perfeccionista nato, entre suas descobertas estão o furo da rosca, o oco exterior e a moeda sem coroa. Profundo humorista, fica triste sempre que o levam a sério: acha que nunca foi tratado com a hilariedade que merece. Infelizmente, está com seus dias contados – 15.980 para sermos exatos.”

Millôr só não foi exato nisso: Fortuna morreu 25 anos depois, aos 63 anos, de um fulminante ataque cardíaco, no dia 5 de setembro de 1994, em São Paulo.

No 22º. Salão de Humor de Piracicaba, realizado em 1995, foi criada e concedida a Medalha “Reginaldo Fortuna” aos maiores destaques do humor da cultura do país, entre eles os cartunistas Jaguar, Claudius, Ziraldo e Millôr Fernandes, o palhaço Arrelia e a comediante Dercy Gonçalves.


Em 2009, Fortuna foi homenageado pelo 2º Salão Internacional de Humor do Rio de Janeiro como “O cartunista dos cartunistas”.

No prefácio do livro “Hay Gobierno?”, que reuniu Fortuna, Claudius e Jaguar fazendo charges contra el gobierno, Paulo Francis enche a bola de Fortuna: “Dos três humoristas, Fortuna me parece o mais político. Seu desenho é sombrio, às vezes fantasmagórico, criando a atmosfera ideal, pelo contraste, para seu ponto de ataque, sempre direto e conciso.”

Ele foi um dos maiores cartunistas (uma espécie em extinção) não do Brasil, mas do mundo. O casamento da ideia e do traço nos seus cartuns é perfeita. Na medida certa.

Perfeccionista, como disse Millôr, levava horas, às vezes dias, redesenhando ou reescrevendo. 

Escrevia tão bem quanto desenhava. A ponto de ser um dos poucos humoristas que ousou fazer trocadilhos sem tropeçar: “em terra de olho quem tem um cego, errei”, obra prima do gênero.

Quando escrevia, assinava Professor Reginaldo. 

E deles dois (Fortuna e o professor) fala Chico Caruso: “O último livro que os dois lançaram juntos, Acho tudo muito estranho (já o Professor Reginaldo não), é um livrinho pequeno e saboroso. Das conclusões a que chegaram sobre várias coisas, uma delas: não foi Cabral quem descobriu o Brasil, mas o marinheiro que gritou lá de cima da gávea “terra à vista!” O desenhista era como esse marinheiro, que via as coisas primeiro e definitivamente. O professor anotava e teorizava.”














O fabuloso Sylvio Redinger


Fevereiro de 2004. O jornal O Globo traz uma pequena notinha na quarta página de seu caderno de variedades, edição de sábado, intitulada “Morre o cartunista Sylvio Redinger, conhecido como Redi”:

O cartunista sofreu um infarto na madrugada desta sexta-feira. Redi estava com 64 anos. Há 25 morava em Nova York, mas morreu no apartamento dele no Rio de Janeiro. Fez diversos trabalhos na TV Globo. O enterro está marcado para 13h, deste domingo, no Cemitério Israelita de Vilar dos Teles, na Baixada Fluminense. As duas únicas ilustrações de capa da história do jornal The New York Times foram feitas por Redi.


No mesmo sábado, dia 14, o também cartunista Ricky escrevia no seu blog pessoal:

Eu ia fechar o sábado com o Jaguar, mas acabaram de me telefonar dizendo que o Redi teve um enfarte enquanto dormia e morreu.

Redi era um personagem. As coisas mais improváveis aconteciam com sua rotunda figura. Ana dizia que fisicamente ele se parecia com o Jeremy Hillary Boob, o Nowhere Man do Yellow Submarine.

Redi era um exímio cartunista e ilustrador. Criou tantos cartões para a Requinte e outras empresas que para toda uma geração suas figuras cartoony eram sinônimo de cartão de aniversário e outras ocasiões.

Ilustrou as melhores publicações brasileiras dos anos 60 e 70, depois foi pra New York onde seu grafismo evoluiu mais ainda e tornou-se conhecido por especialistas do mundo inteiro.

Os leitores brasileiros mais novos pode ser que o conheçam pelas suas crônicas na revista Bundas contando justamente suas desventuras em NY.

Aí resolveu voltar ao Brasil. Se reestabelecer no Rio. Seria um dos jurados do novo Salão Carioca de Humor, mas - típicamente Redi - na última hora não pode ir.

O episódio de sua não ida, claro, foi outra história mirabolante resultando nele ficar retido na Barra e... bem, a maneira dele avisar que não poderia chegar a tempo foi assim:

Ele ligou pro Jaguar perguntando: Jaguar, será que se eu não for no julgamento, o Chico Caruso vai ficar puto?

Aí ligou pro Caulos: Caulos, se eu não for no julgamento o Jaguar vai ficar puto?

Aí ligou pro Chico Caruso...

Isso foi nesta semana.

Aí me ligaram. Amanhã de manhã será enterrado no Cemitério Israelita em Vilar dos Teles. A pessoa que me ligou ainda comentou: Pô, mas o Redi até pra morrer é complicado. Arrumou um cemitério longe pra cacete!

Amanhã escreverei mais sobre Sylvio Redinger.

É mais um da turma do Pasquim que se vai...


Na sua edição de segunda-feira, o já decadente Jornal do Brasil foi bem menos parcimonioso:

Alguém que sempre amou a vida, com múltiplos talentos e total desprendimento. Assim o cartunista Redi (Sylvio Redinger) foi definido por amigos como Chico Caruso e sua mulher, Eliane, o cantor e compositor Paulinho da Viola, a jornalista Dilma Frate, e os cartunistas Nani e Millôr Fernandes. O cartunista carioca, de 64 anos, que morreu vítima de um infarto sexta-feira, foi enterrado no início da tarde de ontem no Cemitério Israelita de Vilar dos Teles.

Segundo Luiz Redinger, irmão do cartunista, as muitas histórias contadas durante o velório amenizaram a tristeza da despedida. Uma delas foi relatada por Chico Caruso, que falou sobre a faceta musical do colega, que, morando em Nova York, sempre que podia participava dos shows humorísticos dos irmãos Caruso. “Era um grande reforço com seu tamborim”, disse Chico. “Redi fazia tudo com prazer e humor. No filme ‘Isso é problema seu’, ele fez o papel de um investidor que sai do prédio da Bolsa de Valores e sofre um ataque cardíaco. Acaba cuidando de seu próprio enterro, desce à sepultura batucando no caixão e pedindo: ‘Garçom, me dá uma cerveja que vou beber até viver!’”

Contemporâneo de Redi e co-diretor do curta, o também cartunista Nani completou: “Filmamos em 1974 e Redi era um ótimo ator, mesmo não tendo prosseguido. Ele tinha um humor sofisticado, mas também era muito popular.” E Caruso acrescentou: “Sabe a história da pessoa certa na hora e no momento certos? Redi nunca seguiu isso, era o antioportunista, não pedia nada a ninguém, mesmo com amigos importantes.”

Radicado nos EUA desde os anos 80, Redi trabalhou no New York Times, assinando as duas únicas charges publicadas na capa do jornal desde a sua fundação. Redi conseguiu seu green card graças a uma carta do jornal americano, como lembrou seu irmão. “Nessa carta, que foi lida no enterro por minha cunhada, eles diziam que seria muito difícil achar um americano com tantas qualidades como as daquele brasileiro”, contou o irmão. “Redi tinha particularidades que faziam dele alguém muito especial. Era ambidestro, mas escrevia com a direita e desenhava com a esquerda.”


Na quinta-feira seguinte, na coluna semanal que mantinha no jornal O Dia, o cartunista Jaguar publicou o seguinte texto, simplesmente intitulado “Redi”:

Estávamos, Ivan Lessa e eu, fechando mais um número do Pasquim da redação da Saint Roman quando o Redi adentrou a minha sala. Pelo menos duas vezes por semana, ele ficava andando na frente da minha mesa pra cá e pra lá até eu perguntar: “Que aconteceu desta vez, Redi?”. No que invariavelmente dizia: “Contando, ninguém acredita” e contava uma história inacreditável, mas com ele tudo podia acontecer. Desta vez, foi direto ao assunto: “Estou com dores no peito”, disse para o Ivan. “Acho que vou ter um enfarte”.

“Claro que vai ter”, rosnou o campeão do mau humor. “Mas com tudo que temos direito”, acrescentou. Jogou-se no chão, emitindo roncos apavorantes, rolou no tapete e finalmente estatelou-se com os olhos vidrados, a língua pra fora. Redi ficou tão impressionado que esqueceu o enfarte e voltou para sua prancheta.

Além de ser um cartunista de sucesso internacional, ele era a personificação do judeu errante. Voltou definitivamente de New Jersey inumeráveis vezes. Há 20 anos, era meu vizinho no Leme. Uma vez me pediu para arranjar um professor de tamborim. Liguei para o Gargalhada, o Paganini do tamborim. Às vezes eu passava no apartamento dele e deparava com uma cena que “contando ninguém acredita”: o Gargalhada dando aula, cada um com seu tamborim.

Acompanhou Emilinha Borba numa turnê pelo Egito e fundou em Nova Iorque o conjunto Rio Samba Jazz, que se apresentou na Trump Tower. Depois aprendeu a tocar cuíca e executava o Samba de uma Nota Só nos shows dos irmãos Caruso. Na semana passada, como não tinha o Ivan para avacalhar seu enfarte, morreu. Ou foi para Nova Jersey, o que dá no mesmo. Um dia desses nos encontramos mais uma vez no calçadão do Leblon.


Ainda sobre o Sylvio Redinger, o Redi, o jornalista Nei Lima, seu amigo de longa data, escreveu o seguinte texto:

Era um tipo grandalhão, desajeitado e um puta desenhista. Muito mais do que isso ele também trilhava pelos caminhos da música, à vontade com vários instrumentos. Os de percussão ele tirava de letra.

Pra quem pensa que o Redi só fazia cartuns, ele também, gostava de pintar e fazer desenhos bem artísticos. Fez até uma exposição no passado em Nova York. Já atuou como ator, fez redação de humor para o Pasquim e Rede Globo.

Em março, no dia 1º, ele ganhará uma homenagem durante a abertura do 15º Salão Carioca de Humor, com uma exposição na Casa França-Brasil, onde será também exibido o curta metragem “Isso é problema seu”, que fez com o cartunista Nani, nos anos 70, em que ele participa como ator. Há uma cena em que o carrega o próprio caixão, caminhando pela Avenida Rio Branco.

Aqui vai um trecho do periódico The New York Times, de 3 de abril de 1984, sobre o Redi:

“(...) Durante o ano passado, The Times usou as ilustrações do senhor Redinger em sistema de freelance. Suas ilustrações chegaram até mesmo a aparecer na primeira página do The Times, o que é uma raridade para um ilustrador. Como encontramos no senhor Redinger um artista de alto calibre sob a pressão do fechamento, estamos oferecendo-lhe um contrato de longo prazo, que nos dará o privilégio de nos beneficiar de seus serviços por tempo integral. Nós respeitosamente pedimos ao Serviço de Imigração e de Naturalização que a nossa petição seja expedida o mais rapidamente possível, para que assim o senhor Redinger tenha a permissão de contribuir com a nossa publicação por tempo integral.”

E, abaixo, alguns de seus trabalhos:





Nas asas do Pelicano


Irmão do falecido cartunista Glauco Vilas Boas, o engenheiro civil, cartunista e publicitário César Augusto Vilas Boas (aka “Pelicano”) já teve seus trabalhos publicados na maioria dos jornais e revistas de Ribeirão Preto, onde reside, além de ter colaborado com O Pasquim, Folha de São Paulo, Jornal da Unesp, Guia das Profissões da Unesp, Correio Popular de Campinas e Jornal Comércio de Jahu.

Em 1984, ele publicou em edição nacional a revista Prato Feito pela editora NovaSampa e, em 1986, desenvolveu charges animada para a EPTV Ribeirão Preto veiculadas no Jornal Regional.

No ano de 2001 produziu a TV Pelica com charges animadas diárias para o programa Clube-Verdade.

A qualidade de seu trabalho fez com que Pelicano recebesse muitas premiações, dentre elas cinco premiações no Salão Internacional de Humor de Piracicaba e o Prêmio de Melhor Cartum Nacional no Salão de Humor do Piauí.

Atualmente, ele produz charges diárias para a Rede Bom Dia de Jornais (São José do Rio Preto, Bauru, Jundiaí e Sorocaba), para o Jornal Tribuna, de Ribeirão Preto, para o Jornal Comércio de Jahu, de Jaú, e para o portal Movimento das Artes.


É no Jardim Ouro Branco que fica a única igreja do Santo Daime de Ribeirão Preto.

O templo, chamado Rainha do Céu, é o lugar onde os daimistas da região, cerca de 200, vão para rezar seus hinos e tomar o chá de ayahuasca (o popular Santo Daime), a fim de “viajar” em um mundo de espiritualidade.

O Daime é uma religião sincretista, com componentes presentes no catolicismo, espiritismo e umbanda.

São santos e guias espirituais, todos reunidos numa só cerimônia, embalada pelo ayahuasca.

A bebida é tida como alucinógina, mas, para os daimistas, é um simples “expansor de consciência”.

“É difícil explicar para quem nunca tomou. O cartunista Laerte fez um resumo que eu achei muito legal. Ele disse que ‘se viu lá’. E acho que é isso, com o Daime as pessoas conseguem se ver...”

A explicação é do cartunista Pelicano.

Ele é um dos dirigentes da igreja de Ribeirão Preto.

Pelicano conheceu a religião com o irmão Glauco, assassinado em março de 2010 por um frequentador da igreja Céu de Maria, em São Paulo.

Hoje, mais que um líder do Daime, Pelicano é um difusor da religião no interior do Estado.

“Antes, grupos de Franca e Ariranha vinham à Rainha do Céu. Mas eles fizeram suas próprias igrejas”.

Curtam abaixo alguns de seus trabalhos:










quinta-feira, 7 de junho de 2012

Darcy Ribeiro: protetor das crianças, dos índios e dos oprimidos



(...) Minhas características distintivas talvez sejam a contraditória vontade insofreável de compreender e o gosto de fazer, que me converteram em híbrido de intelectual e fazedor.

(...) Obras, escritos, cargos, fiz, tentei e exerci muitos. Nisto gastei minha vida. Uns poucos deles ficaram com a minha marca nos mundos que passei, enquanto passava: um sambódromo, um parque indígena, museus, muitas bibliotecas, demasiados ensaios, quatro romances, muitíssimas escolas, algumas universidades. Não é pouco, quisera mais. Muito mais.

(...) Sou um homem de fazimentos.

Darcy Ribeiro in Educador de vanguarda e raízes na terra

Darcy Ribeiro sempre estudou os homens, no sentido humano e também antropológico – sentido mais lato, que engloba origens, evolução, desenvolvimento físico, material e cultural, fisiologia, psicologia, características raciais, costumes sociais, crenças etc. – , criando para eles instrumentos úteis para que não precisassem de ninguém para protegê-los.

Tinha como atenção primeira os índios e as crianças, no que envolve sua educação e raízes, fontes de inspiração para suas lutas e pesquisas. E foi assim também com o nosso Brasil – era preciso alguém para cuidar desse espaço de terra e politizá-lo para deixar de ser um país dos oprimidos.

Darcy ajudou a formar uma América Latina forte e una, capaz de lutar por seus direitos e se impor perante aos países ricos. Era grande fã da Inconfidência Mineira, pois achava o movimento a grande preocupação dos brasileiros com eles mesmos.


Darcy nasceu em Montes Claros (MG), em 26 de outubro de 1922, e faleceu em Brasília (DF), em 17 de fevereiro de 1997. O ano de seu nascimento foi de grande importância para as artes no Brasil, quando aconteceu A Semana de 22 – Oswald de Andrade, Menotti del Picchia, Mário de Andrade e Monteiro Lobato, entre outros, que mobilizaram os artistas para valorização de suas raízes.

Parece que Darcy tinha em sua formação a assinatura, em 1928, do manifesto antropofágico, que propunha basicamente a devoração da cultura e das técnicas importadas e sua reelaboração com autonomia, transformando o produto importado em exportável. O nome do manifesto recuperava a crença indígena: os índios antropófagos comiam o inimigo, supondo que assim estavam assimilando suas qualidades. E o quadro Abaporu (aba = homem e poru = que come), de Tarsila do Amaral, tinha tudo a ver com Darcy Ribeiro.

Darcy começou sua formação acadêmica em Ciências Sociais, pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo (1946), com especialização em Antropologia, nesta época abriu-se para ele horizontes e inquietações com relação à condição dos índios, principalmente os do Brasil ou os “povos da floresta”, como os costumava chamar.

Sua experiência profissional, como etnólogo do Serviço de Proteção aos Índios, começou com o estudo de várias tribos indígenas – Mato Grosso, Amazonas, Brasil Central, Paraná e Santa Catarina –, nos anos 1947 a 1956, e culminou com a fundação do Museu do Índio (1947), do Parque Indígena do Xingu, e com uma grande obra etnográfica – elaborou para a UNESCO um estudo do impacto da civilização sobre os grupos indígenas brasileiros no século XX e colaborou com a Organização Internacional do Trabalho (OIT) na preparação de um manual sobre os povos aborígines de todo o mundo.


Darcy introduziu e organizou o primeiro curso de pós-graduação em antropologia e foi professor de várias universidades e institutos de antropologia. Em 1961, criou a Universidade de Brasília e foi o primeiro reitor da Instituição. Foi ministro da Educação do Governo Jânio Quadros (1961) e chefe da Casa Civil do Governo João Goulart, quando se responsabilizou pelas reformas estruturais. Com o golpe militar de 1964, teve os direitos políticos cassados e foi exilado.

No exílio, percorreu vários países da América Latina. Esteve na Venezuela, Uruguai, Chile e Peru, onde ocupou vários cargos de confiança, como: assessor dos presidentes Salvador Allende (Chile) e Velasco Alvarado (Peru). Nesse período dedicou-se a produzir material de estudo sobre antropologia e publicou seu romance de maior sucesso Maíra – marco sobre o confronto entre “a integração ou interação” das raças branca e índia.

O livro foi publicado pela primeira vez em 1976, teve 48 edições em oito línguas e ganhou, em 1996, uma edição comemorativa, com resenhas e críticas de Antônio Cândido, Alfredo Bosi, Moacir Werneck de Castro e Antonio Houaiss, entre outros.

Em 1980, foi anistiado com o indulto oferecido aos que sofreram com a ditadura militar e tiveram que sair do Brasil. Darcy já havia voltado ao país quatro anos antes para continuar sua luta contra os opressores e a favor de suas ideias. Ao retornar, ocupou cargos políticos ligados principalmente à educação. Seu pensamento maior era a extinguir o analfabetismo e com a ocupação do tempo das crianças na escola por um período mais longo, inspirada no modelo americano.


Associou-se, em 1982, a Leonel Brizola e ao PDT, e foi eleito vice-governador do estado do Rio de Janeiro. Nessa época, realizou uma de suas maiores obras: foi o principal responsável pela criação de cerca de 500 Centros Integrados de Educação Pública (Cieps) – as Escolas Integrais – dos quais sentiu orgulho até o final da vida.

Criou também a Biblioteca Pública Estadual, a Casa França-Brasil, a Casa Laura Alvin e o Sambódromo – batizado de Passarela Darcy Ribeiro – uma obra do arquiteto Oscar Niemeyer que mantêm 200 salas de aula embaixo das arquibancadas.

Com relação aos níveis de educação, tanto se dedicou às crianças – primeiras séries – quanto aos adultos, com projetos voltados ao ensino superior.

Como parlamentar – foi eleito senador em 1990 – defendeu várias leis de utilidade pública, tais como: lei dos transplantes que, invertendo as regras vigentes, torna possível usar os órgãos dos mortos para salvar os vivos; uma lei contra o uso vicioso da cola de sapateiro que envenena e mata milhares de crianças, entre outras.

Um dos pioneiros a levantar a bandeira da ecologia no país, foi responsável pela revitalização da Floresta da Pedra Branca (RJ), o tombamento de 98 quilômetros de praias e encostas, além de mais de mil casas do Rio antigo.

Darcy amava a natureza, acima de qualquer outra arte.


Recebeu vários títulos: Doutor Honoris Causa da Sorbonne, da Universidade de Copenhague, da Universidade da República do Uruguai e da Universidade Central da Venezuela, entre outros. Também escreveu vários livros (ver bibliografia) e foi um dos precursores dos cursos a distância, que começaram a funcionar realmente em 1997.

Preocupava-se com o que deixaria para a humanidade além de sua bibliografia.

Queria formar nas pessoas sentimentos que seguissem suas ideias. Seu plano era formar uma fundação – a Fundação Darcy Ribeiro – sonho concretizado.

Hoje, a Fundação Darcy Ribeiro (Fundar) destina-se a manter obra e memória de seu fundador e a divulgar e promover atividades ligadas à educação e à cultura no Brasil.

A Fundar é uma instituição cultural, de pesquisa e desenvolvimento científico, autossustentável, com personalidade jurídica de direito privado e não tem fins lucrativos. Os Conselheiros exercem suas funções sem remuneração.

Darcy Ribeiro não foi só um educador, sua preocupação envolveu também temas sobre antropologia, cultura, meio ambiente e política. Tinha muitas ideias, concretizadas em vários projetos, para o bem do ser humano.

Quando já estava muito doente, deitado na rede em sua casa de Saquarema, tomando a brisa do mar, costumava dizer: “Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”.

Paulo Freire: muito além da técnica em educação



Paulo Freire trouxe a esperança – mais precisamente a Pedagogia da Esperança – de um mundo melhor, idealizado na maneira como encarava a Educação do povo.

Sua contribuição como educador ultrapassou a barreira do ABC aprendido nas cartilhas e transformou a educação, encarada por ele como obrigação política do Estado, em ato de inserção social igualando classes, raças, sexos e idades.

Nascido Paulo Reglus Neves Freire, em 19 de setembro de 1921, o caçula de quatro irmãos, desde cedo manifestou uma tendência a tornar as palavras objeto especial.

Foi alfabetizado por seus pais e aprendeu as primeiras palavras escrevendo com gravetos no chão do quintal de sua casa em Recife (PE).

A família mudou-se para Jabotão – 18 quilômetros distante de Recife. Perdeu o pai com 13 anos e sofreu duplamente vendo a responsabilidade da mãe para sustentar quatro filhos e a si mesma.

As dificuldades fizeram o amor e afeto aumentarem na família e o fez crescer e amadurecer rapidamente.


O aprendizado que se seguiu foi o da tolerância e do limite, mas a cidade de Jabotão contribuiu muito para que ele não deixasse a fase se transformar em uma época pesada – na cidade aprendeu a ser menino e moleque harmonizando as forças.

E mais importante: aprendeu e tomou gosto, nessa época, pelos estudos das sintaxes populares e língua portuguesa.

Desde a primeira professora, D. Eunice, aprendeu a não decorar regras o que o fez estudar com muito mais prazer.

Fez os cursos fundamental e pré-jurídico no Colégio Oswaldo Cruz, em Recife, e ingressou aos 22 anos na Faculdade de Direito de Recife.

Em 1944, aos 23 anos casou-se com a professora primária Elza Maia Costa Oliveira com quem teve cinco filhos. Nessa época começou a lecionar Língua Portuguesa no Colégio Oswaldo Cruz.

Mais tarde, ocupou os cargos de diretor e superintendente do setor de Educação e Cultura do Sesi, órgão recém-criado pela Confederação Nacional da Indústria, onde iniciou o contato com a educação para adultos/trabalhadores.


Fundou nos anos 1950 o Instituto Capibaribe, instituição de ensino privado conhecida até hoje em Recife pelo seu alto nível de ensino e de formação científica, ética e moral voltada para a consciência democrática.

Foi membro do Conselho Consultivo de Educação do Recife, e alguns anos depois, foi designado para o cargo de Diretor da Divisão de Cultura e Recreação do Departamento de Documentação e Cultura da Prefeitura Municipal do Recife.

Passou a lecionar no nível superior e obteve o título de Doutor em Filosofia e História da Educação, defendendo a tese “Educação e atualidade brasileira”.

Participou do grupo “Conselheiros Pioneiros”, expressão com a qual os próprios integrantes se autodenominaram, escolhido pelo governador Miguel Arraes que apresentava o grupo como “pessoas de notório saber e experiência em matéria de educação e cultura do estado pernambucano”.

Esse grupo foi destituído com o golpe de 1964.

Nessa época, Freire já mostrava envolvimento com uma educação peculiar que partia do saber popular, da linguagem popular, da necessidade popular, respeitando o concreto, o cotidiano e as limitações do povo.

Além disso, apresentava propostas de superação deste mundo de submissão, de silêncio e de misérias a que esse mesmo povo era submetido, apontando para um mundo de possibilidades.

Em 1963, ensinou 300 adultos a ler e escrever em 45 dias. 

Estava aí começando a ganhar nome o “Método Paulo Freire”.

Ainda muito utilizado, com algumas adaptações, nos dias de hoje em todo o mundo, o Método é baseado em um “convite” ao alfabetizando adulto para que ele se veja enquanto homem vivendo e produzindo em determinada sociedade.


Quê? Por quê? Como? Para quê? Por quem? Para quem? Contra quê? Contra quem? A favor de quem? A favor de quê? – são perguntas que provocam os alfabetizandos em torno da substantividade das coisas, da razão de ser delas, de suas finalidades, do modo como se fazem etc.

As atividades de alfabetização exigem a pesquisa do que Freire chamava “universo vocabular mínimo” entre os alfabetizandos. E trabalhando esse universo se escolhem as palavras que farão parte do programa.

Essas palavras, mais ou menos dezessete, chamadas “palavras geradoras”, devem ser palavras de grande riqueza fonêmica e colocadas, necessariamente, em ordem crescente das menores para as maiores dificuldades fonéticas, lidas dentro do contexto mais amplo da vida dos alfabetizandos e da linguagem local, que por isso mesmo é também nacional.

No momento em que o alfabetizando consegue, articulando as sílabas, formar palavras, ele está alfabetizado. O processo requer, evidentemente, aprofundamento, ou seja, a pós-alfabetização.

O trabalho de Paulo Freire é mais do que um método que alfabetiza, é uma ampla e profunda compreensão da educação que tem como centro de suas preocupações a sua natureza política.


Paulo Freire esteve no exílio por quase dezesseis anos – de 1964 a 1969 no Chile; de 1969 a 1970 em Cambrigde, dando aula na Universidade de Havard e, de 1970 a 1979, em Genebra onde foi professor na universidade – exatamente porque compreendeu a educação dessa maneira peculiar e lutou para que um grande número de brasileiros tivesse acesso a esse bem a eles negado secularmente.

Depois de passar 16 anos “andarilhando” pelo mundo voltou ao Brasil em 1979 quando foi assinada a Anistia. Foi recebido com enorme festa. Mas seu retorno de fato aconteceu em 1980. Ainda sentia-se frustrado por não poder voltar ao seu Recife, mas sentiu na volta que poderia “re-aprender meu país”.

Tornou-se professor da Unicamp, nesse mesmo ano, por pressão de alunos e professores, onde permaneceu até 1990. “Por ato de sana injustiça há tanto tempo praticada” foi aposentado pelo governo federal, em 1991.

Após a morte de sua primeira mulher ficou muito abatido só conseguindo retornar “a vida” quando casou-se novamente com Nita (Ana Maria Araújo Freire), chamada carinhosamente assim por Freire, que a conhecia desde a infância.

Uma nova jornada de conquistas vem com essa outra fase de sua vida e assim torna-se Secretário de Educação do Município de São Paulo, no governo Luiza Erundina, do Partido dos Trabalhadores que havia ajudado a formar.

Após abandonar a carreira política e acadêmica voltou a praticar aquilo que mais o satisfazia: escrever. Recebeu, ao longo desse enorme tempo de dedicação ao aprendizado, inúmeros prêmios e homenagens, nacionais e internacionais.

Foi indicado para o Prêmio Nobel da Paz, e, mais importante para ele, escolas do mundo inteiro receberam seu nome como batismo.

Faleceu em 1997, em São Paulo, dois anos depois de ganhar um presente que sempre desejou: uma bola de futebol de couro.

Conhecido por muitos, Freire não deixará que esqueçamos de suas características marcantes: traços seguros e ao mesmo tempo ternos e comunicativos.

Paulo Freire gostaria de ter sido um cantor famoso, mas foi, mundialmente reconhecido, um dos maiores educadores do século XX.

Endereços para conhecer melhor o “Método Paulo Freire”:
                             
http://www.paulofreire.org.br
http://maxpages.com/elias/Artigo_sobre_Paulo_Freire
http://www.paulofreire.org/metodo.htm

sábado, 21 de abril de 2012

Sergio Porto, o melhor humorista das Américas


Sergio Porto com suas três filhas

O cenário é um café. Um alemão “forte pra cachorro” está tomando umas e outras. De repente, ele provoca: “Aqui dentro não tem homem pra mim!” Um turco, igualmente forte, se apresenta, leva um murro e vai ao chão. Então um português, ainda mais forte, parte pra cima do alemão.

A mesma coisa: um murro e o lusitano tomba sem sentidos. Depois foi a vez do inglês, do francês, do norueguês apanharem. E sempre depois de nocautear um desafiante, o alemão repetia que ali não tinha homem pra ele. Até que um brasileiro magrinho levantou-se lá no fundo, perguntou “é comigo?”, o alemão disse “pode ser”, e o brasileiro foi chegando cheio de ginga pro lado do teutônico, parou perto, balançou o corpo e... PIMBA! O alemão deu-lhe uma traulitada na cabeça que o deixou arrebentado.

A história acaba aí “que é pros brasileiros perderem essa mania de pisar macio e pensar que são mais malandros do que os outros”. Este é um resumo da crônica “Vamos acabar com esta folga”, do Stanislaw, a fina flor dos Ponte Preta, publicada em Tia Zulmira e Eu, seu primeiro livro. Ele não suportava esse defeito do brasileiro de ser assim tão folgado.


Se existem coisas que contando ninguém acredita, o carioca Stanislaw Ponte Preta é uma delas. Ele nasceu robusto de zombaria e irreverência em 1951, na redação do Diário Carioca. Jacinto de Thormes deixara vaga a coluna social do jornal e Sérgio Porto foi convidado a ocupá-la. Sérgio não aceitou, mas criou (com a ajuda de Rubem Braga, dizem) o pseudônimo Stanislaw Ponte Preta (inspirado no Serafim Ponte Grande, livro de Oswald de Andrade), para que “Stan não prejudicasse o Sérgio. Isto é, eu, Sérgio, queria escrever coisas sérias; o Stanislaw deveria abordar assuntos inconseqüentes”. A apresentação de Stanislaw ficou assim:

Tremei, cronistas menores, moçoilas que volitais em nossas ribaltas, regozijai-vos! Eis que cá está o mais vivo dos Ponte Preta, o mais fero dos colunistas, o mais noticioso dos noticiadores. Nada puderam contra mim as manobras golpistas que tramavam a derrubada daquele que representa a vontade popular. Stanislaw, exilado em si mesmo, para evitar despesas de viagem, esperou o momento oportuno e aqui está, para gáudio de seus leitores, empunhando sempre em defesa do interesse comum, a sua intemerata e brilhante pena: uma intimorata Remington semiportátil! E após esse intróito tão impregnado de modéstia, no estilo dos colunistas modernos, Stanislaw passa, muito a contragosto, a falar dos outros!

E como falou! Desancou todo mundo. O Lalau era fogo na jacutinga. Ele se dizia um “humorista a sério” e definia seu estilo como “lírico-espinafrativo”. Falava tudo na bucha e não fazia prisioneiros. Gozava até dos “coleguinhas” de imprensa. O colunista social Ibrahim Sued era seu alvo favorito e Lalau não perdia a chance de espinafrar o “famoso escritor líbano-carioca”:

Imaginem vocês que Ibrahim – agora em viagem pela Europa, para desmentir definitivamente a máxima “quem viaja aprende” – vem de publicar uma notinha das mais importantes. Diz o mestre de Jeff Thomas, o inspirador de Pouchard, que andou conversando com o Duque de Windsor. Para castigar um pouco de modéstia no seu escrito, o famoso dramaturco explicou que não conversou em português, o que, aliás, deve ser verdade, pois o duque fala um pouquinho de português, mas Ibrahim não.


O Festival de Besteira que Assola o País – FEBEAPÁ, para os íntimos – começou a ser anotado no livro Garoto Linha Dura, de 1964, o ano da “redentora”, que era como Stanislaw chamava a revolução militar, que deu um grande impulso ao Festival. Dois anos depois, o febeapá ganhava um livro próprio. As notas foram recolhidas da sua coluna “Fofocalizando”, na Última Hora, e editados “na base da bagunça, pra respeitar a atual conjuntura”, como ele explicou no prefácio. Eis alguns tópicos:

Ibrahim Sued, que já era do Festival antes de sua oficialização, estreava um programa de televisão e avisava ao público: “Estarei aqui diariamente às terças e quintas”.

Em Belo Horizonte, um delegado espalhou espiões pelas arquibancadas dos estádios porque “daqui pra frente quem disser mais de três palavrões, torcendo pelo seu clube, vai preso”.

Quando se desenhou a perspectiva de uma seca no interior cearense, as autoridades dirigiram uma circular aos prefeitos, solicitando informações sobre a situação local depois da passagem do equinócio. Um prefeito enviou a seguinte resposta à circular: “Doutor Equinócio ainda não passou por aqui. Se chegar será recebido como amigo, com foguetes, passeata e festas”.


Encontro de bambas: Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Sergio Porto, Carlinhos de Oliveira, Vinicius de Moraes e Fernando Sabino

Em sua luta contra a burrice reinante, Stanislaw combatia entrincheirado nas areias de Copacabana, que ainda era a “Princesinha do Mar”. Era onde lia os jornais, pescando notícias para comentar em sua coluna. Enquanto teve fôlego, foi o goleiro do Lá Vai Bola, time da praia que na linha tinha João Saldanha e Heleno de Freitas. Adorava futebol, inclusive o de botão, e torcia pelo Fluminense. Na Copa do Mundo de 1962 a Fatos & Fotos queria matérias “diferentes” e mandou Stanislaw para o Chile. O embate é contra o México. Sente o drama:

Começa o pega. (...) O Brasil está nervoso. Tá parecendo o misto do Campo Grande em dia de treino. (...) Só no segundo tempo Pelé se lembrou que era Pelé: apanhou a leonor no meio do campo, puxou todos os mexicanos para a direita (vieram todos, de Juarez ao Trio Los Panchos) e deu um passe a Zagalo lá na esquerda, que só teve o trabalho de testar para o véu da noiva. Depois Pelé dava outro passeio pela vereda tropical e da entrada da área venceu o goleiro Carbajal. E foi só.

Que delícia, heim? Vamos então relembrar, com narração do Lalau, os melhores momentos desta conquista, pois vale a pena:

Brasil 2x1 Espanha
Os espanhóis (estão) encolhidos, e não é por causa do frio, é tática mesmo. Do lado da equipe brasileira a bola só vai no fim do mês, pra receber o ordenado. Mas o que a gente pensava que ia ser um carnaval carioca virou uma fiesta brava. (...) Bola no peito de Zagalo, que estica, o lotação Vavá-Largo da Abolição entra no seu itinerário e atropela um pedestre com a camisa da Espanha. O major Puskas dá uma cipoada em Mauro e é advertido. Mas estava escrito e o major apanha a bola, estica pelo meio, Mauro ainda estava pensando numa bobeada anterior e deixa o número 18 deles entrar livre e abrir a contagem. Foi chato. (...) Os nossos estão fazendo o possível, mas pra ganhar este jogo melhor seria fazer o impossível... e é gol! Zagalo foi genial. Depois eu explico, agora de jeito nenhum. Melhorou o Brasil, até Mauro faz uma jogada certa. (...) Garrincha vai devagarzinho, de repente vira foguete, é João pra tudo quanto é lado. Ele centra, Amarildo dá de testinha. É gol, meninada!

Brasil 3x1 Inglaterra
Bate Zagalo, pula seu Mané, pequenino, no meio de diversas Torres de Londres. E é gol dele! (...) Didi come Norman por cima, à la Dominguin, e dá o melhor passe do campeonato para Amarildo. (...) Garrincha oferece um cocktail party no meio da área deles e por pouco não coloca a leonor lá dentro. (...) Greaves dá de balãozinho para dentro da janela de Gilmar, a bola bate na veneziana, volta para Hitchins e é gol. Deles. (...) No segundo tempo, Garrincha continuou garrinchando e deu um gol pra Vavá fazer e parar de gritar pedindo a bola. O jogo tá tão fácil que vovô Nilton Santos sai passeando com os netinhos pela alameda de Sausalito.

Brasil 2x1 Tcheco-Eslováquia
Os tchecos não chegaram à final por acaso, eles dominam a leonor com a mesma facilidade com que o Cartola da Mangueira domina o telecoteco. (...) E lá vai Manuel, o Venturoso. Tem quatro cercando ele, mas é pouco. (...) Mauro bobeou e Masoputz botou o camarada do placar pra trabalhar. E é gol, Amarildo, nem bem eu tinha acabado de escrever a frase acima e Amarildo... ah, menino bom! (...) Zito de vez em quando diz pro Didi güenta aí que vou ali mas já volto e seu Mané dá o primeiro grito de carnaval da tarde. Chutou raspando. (...) Seu Mané escorregou e caiu. Nervoso não é, porque Garrincha só fica nervoso nas peladas de Pau Grande. (...) Amarildo foi à linha de fundo e com calma impressionante esperou que um se colocasse. Quando Zito chegou foi só alçar a infiel por cima da muralha eslava. O sol atrapalhou e o lotação Vavá-Largo da Abolição botou a juriti pra cantar. (...) Os chilenos vinham vaiando o maior craque deste campeonato do mundo, mas agora seu Mané ficou com a bola no pé uns 30 segundos. Palmas do estádio inteiro. E acabou. O Brasil é bicampeão mundial de futebol!
(Entra a musiquinha do Canal 100: “Que bonito é...”)

Stanislaw atacava em todas: rádio, televisão, teatro, cinema. É dele o roteiro e os diálogos da chanchada E O Bicho Não Deu, de 1959. Mais tarde, histórias do livro As Cariocas (assinado por Sérgio Porto) também viraram filme. No rádio, escrevia humorísticos para a Mayrink Veiga, como Miss Campeonato, sobre futebol. Os livros com coletâneas de suas crônicas eram best-sellers instantâneos. Acima de tudo, era um mulherólogo. Mulherengo, também. Mulher era sua principal motivação.


Quando Jacinto de Thormes, “no tempo em que se dedicava a essa bobagem de escriba de soçaite, defeito que ele felizmente já corrigiu”, publicou na Manchete sua lista das Dez Mais Bem Vestidas do Ano, Stanislaw, também colaborador da revista – cobrindo (modo de dizer) o teatro rebolado –, pra não ficar por baixo inventou as Dez Mais Bem Despidas. Depois, quando seu pai Aurélio, com ele certo dia no ponto de ônibus, comentou “olha que moça mais certa”, as Mais Bem Despidas viraram As Certinhas do Lalau, que elegia, a cada temporada, as moças mais quentes.

Normalmente, as eleitas eram vedetes do teatro rebolado, como Aizita Nascimento, Gina Le Feu, Rose Rondelli, Esmeralda Barros, Zélia Martins, Carmem Verônica, Wilza Carla, Ilka Soares, Anilza Leoni, Íris Bruzzi, Angelita Martinez, Brigitte Blair, Mara Rúbia, Miriam Pérsia e Virgínia Lane. Eram lindas, mas de um jeito diferente das misses, porque eram bem mais desinibidas. Ao longo de 14 anos, foram 142 certinhas. Sergio Porto comeu quase todas.

Em 1956, Sérgio Porto ficou famoso em São Paulo ao participar, por 16 semanas, do programa O Céu é o Limite, da TV Tupi, respondendo – absolutamente certo! – as complicadas perguntas de Aurélio Campos sobre música brasileira. O homem era uma enciclopédia musical. Faturou o maior prêmio dado pelo programa até então: 300 mil cruzeiros (quanto isso valeria hoje?). Tinha adoração por Pixinguinha. Sua discoteca era imensa, falava-se em 30 mil discos, entre LPs e 78 rotações. Foi ele quem inventou o termo bossa-nova. O jazz era sua outra grande paixão musical, até escreveu um livreto sobre sua história. Gostava de trabalhar ouvindo música e de vez em quando tocava um trombone imaginário.

O filho da dona Dulce era um “boêmio que adorava ficar em casa” e trabalhava feito louco, o que, segundo os médicos, provocou seu primeiro infarto em 1959, aos 36 anos. Dois anos mais tarde, em carta à mulher Dirce, temporariamente ausente do Rio, ele listava o que andava fazendo:

Hoje fui gravar na televisão e antes foi aquela batalha contra as teclas. Estou trabalhando demais, outra vez. Só para esta semana: seis Stanislaws, um Fatos & Fotos, um final apoteótico para o novo programa do Chico Anísio, roteiro e script para aquela bosta chamada Espetáculos Tonelux, depois quadros humorísticos para a TV Rio, Miss Campeonato, Da Boca Pra Fora, o programa de rádio Atrações A-9, além da revisão do livro O Homem ao Lado que será reeditado no próximo mês e da gravação do programa Qual É o Assunto.

Detalhe: Sérgio ainda era funcionário do Banco do Brasil (Jaguar, que ilustrava seus livros, era outro). Pegava às 7 da manhã, tinha um expediente especial, sem obrigação de horário integral – quanto mais rápido ele terminasse sua tarefa, mais cedo saía. Demitiu-se em 1965, depois de 23 anos de serviço, dizem que por perseguição da “redentora”.


Perto do fim da vida, afastou-se da televisão e foi escrever revistas para o teatro rebolado. Numa delas – Pussy Pussy Cats, produzida por Carlos Machado –, Lalau perpetrou um “Samba do Crioulo Doido”, uma magistral paródia de samba-enredo. A gozação era em cima do Departamento de Turismo da Guanabara, que obrigava as escolas de samba a desfilarem apenas enredos baseados em fatos históricos. O samba extrapolou a ribalta e fez o maior sucesso na gravação do Quarteto em Cy. Sintetiza como a chamada “cultura carnavalesca” entende a nossa história:

Foi em Diamantina onde nasceu JK/ que a Princesa Leopoldina arresorveu se casá/ Mas Chica da Silva tinha outros pretendentes/ e obrigou a princesa a se casar com Tiradentes/ Lá iá lá iá lá iá... O bode que deu vou te contá/ Joaquim José, que também é da Silva Xavié/ Queria ser dono do mundo e se elegeu Pedro Segundo/ Das estradas de Minas seguiu pra São Paulo/ e falou com Anchieta/ O vigário dos índios aliou-se a Dom Pedro/ e acabou com a falseta/ Da união deles dois ficou resolvida a questão/ e foi proclamada a escravidão!/ Assim se conta essa história/ Que é dos dois a maior glória/ A Leopoldina virou trem/ e Dom Pedro é uma estação também / Ô-ô-ô-ô-ô-ô/ O trem tá atrasado ou já passou!

O samba originou o Show do Crioulo Doido, uma palestra musical que estreou no início de 1968 e teve mais de uma centena de apresentações pelo País, com um desinibido Stanislaw no palco, contando casos apoiado pelo Quarteto em Cy. Mas isso foi muito depois de ele dar um vexame daqueles na tevê. Foi quando o Brasil estava sendo atropelado pela modernidade e embora a televisão ainda fosse apenas um eletrodoméstico presente em poucas casas, já primava pelo mínimo denominador comum. Stanislaw a chamava de “máquina de fazer doido”. E exemplifica: certa vez assistia ao ensaio de um programa cuja música-tema começava assim: “Times Square é uma esquina...” Ele alertou o diretor que Times Square era uma praça. Mas isso não tinha qualquer importância.


Foi na máquina de fazer doido que Stanislaw teve seu único e retumbante fracasso. Isso em 1961. O programa que estreava na TV Rio chamava-se Noite de Gala, era ao vivo, e Stan era seu mestre-de-cerimônias. Acontece que ele morria de medo de encarar uma câmera de televisão e quando chegou a hora agá ele simplesmente travou, emudeceu de tanto nervosismo. Dizem que foi um dos maiores desastres da história televisiva brasileira. Mas Noite de Gala foi em frente e fez tanto sucesso que acabou levando alguns cinemas do Rio a cancelarem as sessões nas noites de segunda-feira, quando o programa ia ao ar.

Lalau, claro, não era mais o apresentador. Devido a este trauma de câmera surgiu a idéia de ele ser focalizado apenas por trás, eliminando assim a causa do problema – e então nasceu o segmento Stanislaw Ponte Preta de Costas para a Fama, com ele batucando uma “datilográfica” e tendo uma “Certinha” de maiô ao fundo, fazendo poses sensuais enquanto ele fazia seus comentários sarcásticos.

Stanislaw escreveu alguns episódios para a série de tevê “Alô, Doçura!”, com John Herbert e Eva Wilma, e participou do Jornal de Vanguarda (que estreou na TV Excelsior, depois foi para a Tupi e em 1965 estava na Globo), comentando as notícias lidas por Cid Moreira ou Luiz Jatobá, comentários que invariavelmente levavam todos no estúdio a dar risada. Depois teve seu próprio programa, o Stanislaw Ponte Preta Show, na TV Tupi.

É provável que seu peculiar senso de humor tenha sido herdado de Aparício Torelly, o Barão de Itararé, cuja revista A Manha foi fechada pelo presidente-marechal Dutra em 1947 (fazer humor no Brasil sempre foi perigoso). Que frasista excepcional era o Barão: “O mundo é redondo, mas está ficando chato”, “O tambor faz barulho, mas é vazio por dentro”, “Negociata é um bom negócio para o qual não fomos convidados”. Torelly tentou recomeçar com o Jornal do Povo, e foi lá que Sérgio Porto deu início a sua carreira, fazendo crítica de cinema.

Sua última peripécia foi o “semanário hepático-filosófico” A Carapuça, tablóide lançado em agosto de 1968. No título do editorial de primeira página, um cacófato proposital: “Fé de Ofício”. No rodapé, o pensamento da semana: “Se Pilatos usasse luvas não teria lavado as mãos”. Na seção “O bicho que está dando”, ele comentava opiniões alheias. Seu amigo Paulo Francis havia dito que um tal político, que conseguiu seis milhões de votos, não se elegeria nem vereador, e isso só Freud explicaria. Lalau: “Não é só isso, Francis. Qualquer espiroqueta entendido em democracia explica isso com a mesma facilidade com que o Ibrahim gagueja nas proparoxítonas”. O jornaleco morreu na quinta edição, em setembro, junto com Stanislaw, pouco antes do AI-5 dar o pontapé inicial nos anos de chumbo. Foi de infarto, o terceiro, aos 45 anos. Conta a lenda que morreu flertando com a enfermeira. “Tunica, eu tô apagando” foram suas últimas palavras.

O Pasquim, legítimo herdeiro de A Carapuça, foi para as bancas em junho de 1969. Seu primeiro número era dedicado à memória de Sérgio Porto, “o santo maior do nosso altar particular”. O resto, como se diz, é história...


Stanislaw Ponte Preta foi um inovador na imprensa brasileira. Sua prosa era cômica, concisa e popular, sem pedantismo ou empolação e sem concessões à mediocridade. Suas crônicas retratavam os hábitos e costumes de um Rio de Janeiro que não mais existe, de um tempo em que a favela ainda estava em processo de romantização, aquela demagogia do “barracão de zinco sem telhado, sem pintura, sinfonia de pardais anunciando o alvorecer”. Era um Rio mais carioca, gozador, “cidade que me seduz, de dia falta água, de noite falta luz”, como dizia a marchinha carnavalesca. Em sua breve vida, Lalau veio para nos divertir.