segunda-feira, 1 de junho de 2015

O inacreditável Nani



O compositor Moacyr Luz e Nani, com o garçom Pedro Henrique, do Lamas

Mineiro de Esmeraldas – cidade bem pequena perto de Belo Horizonte –, Ernani Diniz Lucas, mais conhecido como Nani, nasceu em 27 de fevereiro de 1951.

Nani começou sua carreira em BH, em 1971, publicando charges em O Diário.

Em 1973, mudou-se para o Rio de Janeiro. Colaborou com O Pasquim, a partir do qual, junto com seis outros artistas, criou O Pingente.

Foi também chargista do Jornal da Globo e colaborou na MAD brasileira.

No Rio, sua presença também está marcada no Jornal dos Sports (no qual “herdou” a cadeira do Henfil), Última Hora, Diário de Notícias, O Dia e na Tribuna da Imprensa.

Nani já foi premiado em Salões de Humor em Montreal, Niterói e Piracicaba. Sua revista própria é O Nanista.

É autor dos livros “Feliz e orgulhoso, envaidecido mesmo”, “Cachorro quente uivando para a lua”, “A traça de A a Z” (livro que ensina as crianças a se familiarizar com o alfabeto), “Jornal do menininho” e “Se arrependimento matasse”.

Pela L&PM já publicou “Batom na cueca”, “É grave, doutor?”, “Foi bom pra você?”, “Humor politicamente incorreto” e “Orai Pornô”.

Em entrevista a L&PM Editores, Nani fala sobre seu início na profissão de cartunista, os anos de participação no jornal O Pasquim – o mais importante veículo de oposição à ditadura militar no Brasil –, a censura na época da ditadura e a censura atual, que para ele é velada. “O politicamente correto está contaminando toda a cultura”, afirma.


L&PM – Quando você começou a desenhar e como o humor entrou nos seus desenhos?

Nani – Como profissão, eu tive um estalo quando aos 13 anos, vendo uma revista de humor chamada Vamos Rir – que publicava cartuns estrangeiros variados –, eu disse: isso eu sei fazer. Na mesma hora sentei e fiz meu primeiro cartum, com um desenho (muito ruim) de dois piratas com ganchos, um dizia para o outro: “Conheço essa região como a palma da minha mão”. A partir daí, eu desenhava freneticamente nas horas vagas, bolando cerca de quarenta cartuns por dia. Procurava temas nos cartuns das poucas revistas que chegavam em Esmeraldas, cidade do interior de Minas, e no jornal O Cruzeiro, com influência do Millôr, Carlos Estevão e do Henfil. Daí que resolvi batalhar para ser cartunista, pois eu pensava: se há tantas pessoas desenhando humor é porque isso é uma profissão.

L&PM – Você começou a publicar seus trabalhos profissionalmente em Belo Horizonte. Quando aconteceu sua aproximação com O Pasquim?

Nani – Dos 13 anos aos 18 morei em Esmeraldas. Desenhando todos os dias, eu fui de certa maneira me formando como cartunista. Quando fui para Belo Horizonte, em 1969, encontrei O Pasquim nas bancas, ano em que o jornal havia surgido. Foi uma epifania, era naquele jornal que eu queria estar um dia. Aos 20 anos comecei a publicar no jornal O Diário, de Belo Horizonte. Meu humor chamou a atenção de um editor que me convidou para ir ao Rio de Janeiro para trabalhar no O Jornal. Ao chegar lá, tive contato com Henfil, que me mandou ir para a redação do Pasquim e me colar no Jaguar. “Jaguar sabe tudo”, me disse Henfil. E eu fui encher o saco do Jaguar. Fiquei no Pasquim até o seu final.

L&PM – Como foi a sua experiência de trabalho nessa imprensa alternativa, em plena ditadura?

Nani – Minha geração cresceu com o pecado original da ditadura. Fazer charges no período era mais complicado por causa da censura. No Pasquim tínhamos que mandar o triplo de material para que, depois do feroz crivo dos censores, sobrasse material para o jornal ser feito. Não mandávamos originais porque eles vinham rabiscados com pilots – não havia respeito pela obra de ninguém. Se o Picasso mandasse um desenho que os censores não gostassem, eles rabiscariam também. Os tempos eram de terror, Ziraldo dava o nome de advogados para as esposas e namoradas dos cartunistas, para que, caso alguém sumisse, procurassem ajuda. O humor que fazíamos era humor de guerrilha. A censura era ridícula. Uma vez saiu uma notícia que dizia que no Pão de Açúcar havia urânio. Alguém escreveu uma dica dizendo que ia testar usando o contador geiger. Censuraram alegando que estavam chamando o Geisel de contador e ele era general. Alguém escreveu “uma próspera comuna mineira”. Os censores cortaram o comuna, achando que se referia ao comunismo.

L&PM – Você pode dar mais exemplos das contrariedades cometidas contra a imprensa nessa época?

Nani – O Pasquim foi bombardedo, jogaram uma bomba na casa onde o jornal funcionava. Bancas foram explodidas. Isso afetava as vendas, pois os jornaleiros se recusavam a vender o jornal. Ziraldo, Jaguar, Paulo Francis, Fortuna, Flávio Rangel, Luís Carlos Maciel, Sergio Cabral foram presos. Outros veículos alternativos como Opinião e Movimento também sofriam por causa da censura. Mas o Pasquim foi importante porque entrevistava os exilados, apoiou a anistia e lutava desde o primeiro número contra a ditadura. Outros temas também foram lançados pelo jornal, como a ecologia. O Pasquim foi o primeiro a falar sobre a causa ecológica.

L&PM – Atualmente, existe algum outro tipo de censura?

Nani – Hoje a censura é pior porque ela é velada, é a censura do politicamente correto. Humor que pede licença não é humor. O politicamente correto está contaminando toda a cultura. Cada vez mais grupos, grupelhos, guetos, classes, pessoas públicas e privadas reivindicam imunidade contra a crítica. O humor tem que ser crítico, ora. A liberdade de opinião é cada vez mais filtrada, o que temos hoje é uma liberdade “Melita”.  Isso afeta os meios de comunicação, que ficam se cercando, adivinhando processos que podem sofrer se vão contra o politicamente correto.

L&PM – Você faz humor, escreve e faz cartuns... Como é administrar essas diversas manifestações de um mesmo talento?

Nani – Precisamos do humor para não morrer de realidade. Penso a vida através do humor. O humor é o menor caminho entre duas pessoas. A primeira coisa que o pai faz com o filho é um ato de humor: faz careta para o filho rir. Todos querem o riso através da vida, o riso que pode ser traduzido em felicidade. O espantalho é colocado na plantação não para espantar os pássaros, mas para que eles riam e achem o fazendeiro um cara legal. Como artista é o que eu gosto, levar o riso às pessoas – este riso que envolve crítica, conhecimento, poesia e simples divertimento. Daí eu expressá-lo desenhando, escrevendo para ser lido ou interpretado. Gostaria de ter mais veículos para mostrar muita coisa que tenho inédita. Minhas gavetas estão cheias. A única coisa que não fiz em humor foi escultura, mas um dia ainda pretendo fazer uma escultura engraçada.

L&PM – Como o cartum conseguiu ter um espaço tão grande na imprensa sendo, muitas vezes, contrário ao editorial?

Nani – O desenho foi importante no início da imprensa quando não havia fotos. As charges sempre fizeram parte de um jornal. No Brasil houve um tempo que ela era chamada charge editorial porque saía na página dos editoriais. Na época da ditadura, as charges diziam coisas que as matérias dos jornais não podiam dizer, daí os jornais que não tinham, passaram a ter. Quando acabou a censura alguns jornais dispensaram os chargistas. Tirando algumas exceções, a charge hoje é ilustrativa do fato do dia, poucas charges têm opinião. A charge de opinião sumiu dos jornais brasileiros, talvez já sendo um reflexo do politicamente correto. Sendo a charge uma manifestação crítica e símbolo da liberdade de imprensa, eu acho que é muito importante um jornal tê-la em suas páginas, porque mostra a independência desse jornal. A charge é a quarta leitura que o leitor faz do jornal. Primeiro a pessoa lê a manchete, depois lê a notícia, depois o comentário de um articulista ou o editorial e depois vê a charge, que é a quarta leitura e, às vezes, a mais verdadeira sobre o fato.

NOTA: para acessar o site do cartunista clique aqui


O cartunista Nani agora é do PSOL

Caro Sombra! Estive na noite de terça-feira no famoso Bar dos Cartunistas para receber, diga-se de passagem com imenso prazer, a ficha de filiação no PSOL do cartunista Nani.  O bar está localizado no alto viaduto da Borges e é parte do patrimônio histórico e cultural de Porto Alegre. Nani, além de servir diariamente almoço a preço popular, é conhecido por imprimir em suas charges críticas ácidas e engajamento político. Forte abraço!

Pedro Ruas













O Grande Mestre Fortuna



Reginaldo José de Azevedo Fortuna nasceu em São Luís no dia 21 de agosto de 1931 e tinha como codinome o próprio sobrenome.

Considerado um dos maiores cartunistas do Brasil, ainda criança conheceu o semanário A Manhã, que se transformou em uma de suas publicações favoritas.

Aos 14 anos, após perder o pai, Fortuna mudou-se com sua mãe para o Rio de Janeiro.

Seus primeiros trabalhos na imprensa foram publicados no final da década de 40 na revista infantil do Sesi (“Sesinho”), A Cigarra, O Cruzeiro e Revista da Semana.

No final da década de 50, o estilo inconfundível de Fortuna apareceria nas belíssimas páginas da revista Senhor.



Em 1964, às vésperas do golpe militar e em parceria com Millôr Fernandes, Ziraldo, Jaguar, Claudius e Sérgio Porto, lançam o quinzenário colorido O Pif-Paf, publicação que sobreviveu até o oitavo número e serviu de base para o mais importante jornal de oposição à ditadura, O Pasquim.

Nessa época também foi chargista no jornal carioca Correio da Manhã.


Quando o Correio da Manhã foi extinto no final dos anos 60, eis que surge O Pasquim, produzido por Fortuna, Tarso de Castro, Millôr Fernandes, Ziraldo, Paulo Francis, Luiz Carlos Maciel, o novato Henfil e dezenas de outros colaboradores.

No início dos anos 70, Fortuna mudou-se para São Paulo e assumiu o posto de diretor de redação da revista Cláudia, onde passou a dar conselhos às leitoras sob o pseudônimo Ana Maria.

Em seguida tornou-se editor de arte e capista da revista Veja, onde ficou até 1975.

Nesta mesma época, em parceria com Luiz Gê, Paulo e Chico Caruso, Laerte, Cláudio Paiva e Nani, Fortuna lança a revista O Bicho, pioneira das histórias em quadrinhos inteiramente nacionais e, como ele dizia, “não-enlatadas”, onde surge com a personagem “Madame e seu bicho muito louco”.

A partir de 1998, os dois personagens se transformariam no símbolo do troféu HQ Mix, o mais importante das histórias em quadrinhos do país.

Em 77, Fortuna vai para A Folha de São Paulo fundar com Tarso de Castro o suplemento “Folhetim”, uma espécie de Pasquim encartado no próprio jornal.

A partir daí inicia uma nova fase como chargista editorial.

Fortuna saiu da Folha em 84, logo depois da campanha das Diretas, e ficou um longo tempo fora da grande imprensa, retornando com charges semanais para a Gazeta Mercantil.


Foi considerado um dos 100 melhores cartunistas do mundo em 1977 pela Casa do Humor e Sátira de Gabrovo, da Bulgária.

Participou das antologias “Seis desenhistas brasileiros de humor” (Ed. Massao Ohno, 1962), “Hay  gobierno?” (Ed.Civilização Brasileira, 1964), “Dez em humor” (Ed. Expressão e Cultura, 1969).

É autor dos livros “Aberto para balanço” (Ed. Codecri, 1980), “Diz, logo tipo” (Kraft/Studioma, 1990) e “Acho tudo muito estranho (já o Professor Reginaldo, não)” (Ed. Anita Garibaldi, 1992).

Na sua série “Retratos 3X4 de alguns amigos 6X9”, Millôr Fernandes assim o definiu:
“Fortuna tem trinta e poucos anos de altura, a personalidade dele mesmo, riso hipotético, traço desconfiado e é tarado por coisas que detesta. Perfeccionista nato, entre suas descobertas estão o furo da rosca, o oco exterior e a moeda sem coroa. Profundo humorista, fica triste sempre que o levam a sério: acha que nunca foi tratado com a hilariedade que merece. Infelizmente, está com seus dias contados – 15.980 para sermos exatos.”

Millôr só não foi exato nisso: Fortuna morreu 25 anos depois, aos 63 anos, de um fulminante ataque cardíaco, no dia 5 de setembro de 1994, em São Paulo.

No 22º. Salão de Humor de Piracicaba, realizado em 1995, foi criada e concedida a Medalha “Reginaldo Fortuna” aos maiores destaques do humor da cultura do país, entre eles os cartunistas Jaguar, Claudius, Ziraldo e Millôr Fernandes, o palhaço Arrelia e a comediante Dercy Gonçalves.


Em 2009, Fortuna foi homenageado pelo 2º Salão Internacional de Humor do Rio de Janeiro como “O cartunista dos cartunistas”.

No prefácio do livro “Hay Gobierno?”, que reuniu Fortuna, Claudius e Jaguar fazendo charges contra el gobierno, Paulo Francis enche a bola de Fortuna: “Dos três humoristas, Fortuna me parece o mais político. Seu desenho é sombrio, às vezes fantasmagórico, criando a atmosfera ideal, pelo contraste, para seu ponto de ataque, sempre direto e conciso.”

Ele foi um dos maiores cartunistas (uma espécie em extinção) não do Brasil, mas do mundo. O casamento da ideia e do traço nos seus cartuns é perfeita. Na medida certa.

Perfeccionista, como disse Millôr, levava horas, às vezes dias, redesenhando ou reescrevendo. 

Escrevia tão bem quanto desenhava. A ponto de ser um dos poucos humoristas que ousou fazer trocadilhos sem tropeçar: “em terra de olho quem tem um cego, errei”, obra prima do gênero.

Quando escrevia, assinava Professor Reginaldo. 

E deles dois (Fortuna e o professor) fala Chico Caruso: “O último livro que os dois lançaram juntos, Acho tudo muito estranho (já o Professor Reginaldo não), é um livrinho pequeno e saboroso. Das conclusões a que chegaram sobre várias coisas, uma delas: não foi Cabral quem descobriu o Brasil, mas o marinheiro que gritou lá de cima da gávea “terra à vista!” O desenhista era como esse marinheiro, que via as coisas primeiro e definitivamente. O professor anotava e teorizava.”














O fabuloso Sylvio Redinger


Fevereiro de 2004. O jornal O Globo traz uma pequena notinha na quarta página de seu caderno de variedades, edição de sábado, intitulada “Morre o cartunista Sylvio Redinger, conhecido como Redi”:

O cartunista sofreu um infarto na madrugada desta sexta-feira. Redi estava com 64 anos. Há 25 morava em Nova York, mas morreu no apartamento dele no Rio de Janeiro. Fez diversos trabalhos na TV Globo. O enterro está marcado para 13h, deste domingo, no Cemitério Israelita de Vilar dos Teles, na Baixada Fluminense. As duas únicas ilustrações de capa da história do jornal The New York Times foram feitas por Redi.


No mesmo sábado, dia 14, o também cartunista Ricky escrevia no seu blog pessoal:

Eu ia fechar o sábado com o Jaguar, mas acabaram de me telefonar dizendo que o Redi teve um enfarte enquanto dormia e morreu.

Redi era um personagem. As coisas mais improváveis aconteciam com sua rotunda figura. Ana dizia que fisicamente ele se parecia com o Jeremy Hillary Boob, o Nowhere Man do Yellow Submarine.

Redi era um exímio cartunista e ilustrador. Criou tantos cartões para a Requinte e outras empresas que para toda uma geração suas figuras cartoony eram sinônimo de cartão de aniversário e outras ocasiões.

Ilustrou as melhores publicações brasileiras dos anos 60 e 70, depois foi pra New York onde seu grafismo evoluiu mais ainda e tornou-se conhecido por especialistas do mundo inteiro.

Os leitores brasileiros mais novos pode ser que o conheçam pelas suas crônicas na revista Bundas contando justamente suas desventuras em NY.

Aí resolveu voltar ao Brasil. Se reestabelecer no Rio. Seria um dos jurados do novo Salão Carioca de Humor, mas - típicamente Redi - na última hora não pode ir.

O episódio de sua não ida, claro, foi outra história mirabolante resultando nele ficar retido na Barra e... bem, a maneira dele avisar que não poderia chegar a tempo foi assim:

Ele ligou pro Jaguar perguntando: Jaguar, será que se eu não for no julgamento, o Chico Caruso vai ficar puto?

Aí ligou pro Caulos: Caulos, se eu não for no julgamento o Jaguar vai ficar puto?

Aí ligou pro Chico Caruso...

Isso foi nesta semana.

Aí me ligaram. Amanhã de manhã será enterrado no Cemitério Israelita em Vilar dos Teles. A pessoa que me ligou ainda comentou: Pô, mas o Redi até pra morrer é complicado. Arrumou um cemitério longe pra cacete!

Amanhã escreverei mais sobre Sylvio Redinger.

É mais um da turma do Pasquim que se vai...


Na sua edição de segunda-feira, o já decadente Jornal do Brasil foi bem menos parcimonioso:

Alguém que sempre amou a vida, com múltiplos talentos e total desprendimento. Assim o cartunista Redi (Sylvio Redinger) foi definido por amigos como Chico Caruso e sua mulher, Eliane, o cantor e compositor Paulinho da Viola, a jornalista Dilma Frate, e os cartunistas Nani e Millôr Fernandes. O cartunista carioca, de 64 anos, que morreu vítima de um infarto sexta-feira, foi enterrado no início da tarde de ontem no Cemitério Israelita de Vilar dos Teles.

Segundo Luiz Redinger, irmão do cartunista, as muitas histórias contadas durante o velório amenizaram a tristeza da despedida. Uma delas foi relatada por Chico Caruso, que falou sobre a faceta musical do colega, que, morando em Nova York, sempre que podia participava dos shows humorísticos dos irmãos Caruso. “Era um grande reforço com seu tamborim”, disse Chico. “Redi fazia tudo com prazer e humor. No filme ‘Isso é problema seu’, ele fez o papel de um investidor que sai do prédio da Bolsa de Valores e sofre um ataque cardíaco. Acaba cuidando de seu próprio enterro, desce à sepultura batucando no caixão e pedindo: ‘Garçom, me dá uma cerveja que vou beber até viver!’”

Contemporâneo de Redi e co-diretor do curta, o também cartunista Nani completou: “Filmamos em 1974 e Redi era um ótimo ator, mesmo não tendo prosseguido. Ele tinha um humor sofisticado, mas também era muito popular.” E Caruso acrescentou: “Sabe a história da pessoa certa na hora e no momento certos? Redi nunca seguiu isso, era o antioportunista, não pedia nada a ninguém, mesmo com amigos importantes.”

Radicado nos EUA desde os anos 80, Redi trabalhou no New York Times, assinando as duas únicas charges publicadas na capa do jornal desde a sua fundação. Redi conseguiu seu green card graças a uma carta do jornal americano, como lembrou seu irmão. “Nessa carta, que foi lida no enterro por minha cunhada, eles diziam que seria muito difícil achar um americano com tantas qualidades como as daquele brasileiro”, contou o irmão. “Redi tinha particularidades que faziam dele alguém muito especial. Era ambidestro, mas escrevia com a direita e desenhava com a esquerda.”


Na quinta-feira seguinte, na coluna semanal que mantinha no jornal O Dia, o cartunista Jaguar publicou o seguinte texto, simplesmente intitulado “Redi”:

Estávamos, Ivan Lessa e eu, fechando mais um número do Pasquim da redação da Saint Roman quando o Redi adentrou a minha sala. Pelo menos duas vezes por semana, ele ficava andando na frente da minha mesa pra cá e pra lá até eu perguntar: “Que aconteceu desta vez, Redi?”. No que invariavelmente dizia: “Contando, ninguém acredita” e contava uma história inacreditável, mas com ele tudo podia acontecer. Desta vez, foi direto ao assunto: “Estou com dores no peito”, disse para o Ivan. “Acho que vou ter um enfarte”.

“Claro que vai ter”, rosnou o campeão do mau humor. “Mas com tudo que temos direito”, acrescentou. Jogou-se no chão, emitindo roncos apavorantes, rolou no tapete e finalmente estatelou-se com os olhos vidrados, a língua pra fora. Redi ficou tão impressionado que esqueceu o enfarte e voltou para sua prancheta.

Além de ser um cartunista de sucesso internacional, ele era a personificação do judeu errante. Voltou definitivamente de New Jersey inumeráveis vezes. Há 20 anos, era meu vizinho no Leme. Uma vez me pediu para arranjar um professor de tamborim. Liguei para o Gargalhada, o Paganini do tamborim. Às vezes eu passava no apartamento dele e deparava com uma cena que “contando ninguém acredita”: o Gargalhada dando aula, cada um com seu tamborim.

Acompanhou Emilinha Borba numa turnê pelo Egito e fundou em Nova Iorque o conjunto Rio Samba Jazz, que se apresentou na Trump Tower. Depois aprendeu a tocar cuíca e executava o Samba de uma Nota Só nos shows dos irmãos Caruso. Na semana passada, como não tinha o Ivan para avacalhar seu enfarte, morreu. Ou foi para Nova Jersey, o que dá no mesmo. Um dia desses nos encontramos mais uma vez no calçadão do Leblon.


Ainda sobre o Sylvio Redinger, o Redi, o jornalista Nei Lima, seu amigo de longa data, escreveu o seguinte texto:

Era um tipo grandalhão, desajeitado e um puta desenhista. Muito mais do que isso ele também trilhava pelos caminhos da música, à vontade com vários instrumentos. Os de percussão ele tirava de letra.

Pra quem pensa que o Redi só fazia cartuns, ele também, gostava de pintar e fazer desenhos bem artísticos. Fez até uma exposição no passado em Nova York. Já atuou como ator, fez redação de humor para o Pasquim e Rede Globo.

Em março, no dia 1º, ele ganhará uma homenagem durante a abertura do 15º Salão Carioca de Humor, com uma exposição na Casa França-Brasil, onde será também exibido o curta metragem “Isso é problema seu”, que fez com o cartunista Nani, nos anos 70, em que ele participa como ator. Há uma cena em que o carrega o próprio caixão, caminhando pela Avenida Rio Branco.

Aqui vai um trecho do periódico The New York Times, de 3 de abril de 1984, sobre o Redi:

“(...) Durante o ano passado, The Times usou as ilustrações do senhor Redinger em sistema de freelance. Suas ilustrações chegaram até mesmo a aparecer na primeira página do The Times, o que é uma raridade para um ilustrador. Como encontramos no senhor Redinger um artista de alto calibre sob a pressão do fechamento, estamos oferecendo-lhe um contrato de longo prazo, que nos dará o privilégio de nos beneficiar de seus serviços por tempo integral. Nós respeitosamente pedimos ao Serviço de Imigração e de Naturalização que a nossa petição seja expedida o mais rapidamente possível, para que assim o senhor Redinger tenha a permissão de contribuir com a nossa publicação por tempo integral.”

E, abaixo, alguns de seus trabalhos:





Nas asas do Pelicano


Irmão do falecido cartunista Glauco Vilas Boas, o engenheiro civil, cartunista e publicitário César Augusto Vilas Boas (aka “Pelicano”) já teve seus trabalhos publicados na maioria dos jornais e revistas de Ribeirão Preto, onde reside, além de ter colaborado com O Pasquim, Folha de São Paulo, Jornal da Unesp, Guia das Profissões da Unesp, Correio Popular de Campinas e Jornal Comércio de Jahu.

Em 1984, ele publicou em edição nacional a revista Prato Feito pela editora NovaSampa e, em 1986, desenvolveu charges animada para a EPTV Ribeirão Preto veiculadas no Jornal Regional.

No ano de 2001 produziu a TV Pelica com charges animadas diárias para o programa Clube-Verdade.

A qualidade de seu trabalho fez com que Pelicano recebesse muitas premiações, dentre elas cinco premiações no Salão Internacional de Humor de Piracicaba e o Prêmio de Melhor Cartum Nacional no Salão de Humor do Piauí.

Atualmente, ele produz charges diárias para a Rede Bom Dia de Jornais (São José do Rio Preto, Bauru, Jundiaí e Sorocaba), para o Jornal Tribuna, de Ribeirão Preto, para o Jornal Comércio de Jahu, de Jaú, e para o portal Movimento das Artes.


É no Jardim Ouro Branco que fica a única igreja do Santo Daime de Ribeirão Preto.

O templo, chamado Rainha do Céu, é o lugar onde os daimistas da região, cerca de 200, vão para rezar seus hinos e tomar o chá de ayahuasca (o popular Santo Daime), a fim de “viajar” em um mundo de espiritualidade.

O Daime é uma religião sincretista, com componentes presentes no catolicismo, espiritismo e umbanda.

São santos e guias espirituais, todos reunidos numa só cerimônia, embalada pelo ayahuasca.

A bebida é tida como alucinógina, mas, para os daimistas, é um simples “expansor de consciência”.

“É difícil explicar para quem nunca tomou. O cartunista Laerte fez um resumo que eu achei muito legal. Ele disse que ‘se viu lá’. E acho que é isso, com o Daime as pessoas conseguem se ver...”

A explicação é do cartunista Pelicano.

Ele é um dos dirigentes da igreja de Ribeirão Preto.

Pelicano conheceu a religião com o irmão Glauco, assassinado em março de 2010 por um frequentador da igreja Céu de Maria, em São Paulo.

Hoje, mais que um líder do Daime, Pelicano é um difusor da religião no interior do Estado.

“Antes, grupos de Franca e Ariranha vinham à Rainha do Céu. Mas eles fizeram suas próprias igrejas”.

Curtam abaixo alguns de seus trabalhos: